quinta-feira, 14 de abril de 2016

A emergência da mão esquerda

Era mais uma noite de plantão na emergência hospitalar. Doutor Mauro e toda a equipe de médicos , enfermeiros e demais profissionais plantonistas estavam a postos, aguardando novas entradas na emergência e, ao mesmo tempo, monitorando a situação dos pacientes internados, em observação ou prontos para receber alta. Tudo estava sob controle, considerando a realidade rotineira de um pronto-socorro.

Até que, por volta das 22 horas, chegou à emergência uma situação bastante peculiar: um rapaz jovem, desacordado, roupa ensanguentada... acompanhado por um desconhecido que, comovido com o que havia presenciado, havia tomado a iniciativa de transportar aquele jovem para a emergência mais próxima. O desconhecido levou, juntamente com o jovem desacordado, uma sacola plástica contendo um pouco de gelo e algo que pertencia ao jovem: enrolada num toalha, a mão esquerda decepada!

Com base nos relatos do desconhecido, Doutor Mauro compreendeu que aquele jovem, por alguma razão, havia cortado sua própria mão minutos antes de sua entrada na emergência. Ao examinar cuidadosamente a mão decepada e o braço mutilado, grande foi sua admiração e espanto ao perceber que o corte havia sido feito de maneira incrível e praticamente cirúrgica, tornando viável a possibilidade de restaurar o membro decepado de volta ao lugar de onde não deveria ter sido removido... Mas a viabilidade dependia de uma cirurgia emergencial, para a qual a toda a equipe foi imediatamente convocada.

Foi uma cirurgia complicadíssima, que manteve Doutor Mauro e sua equipe ocupados durante toda a madrugada daquele plantão. Por fim, o jovem teve sua mão esquerda cirurgicamente reimplantada com sucesso e seguiu desacordado, agora por efeito do sedativo, para a enfermaria, a fim de receber os primeiros cuidados pós-operatórios.

Mais tarde, já durante o dia, recuperando a consciência, o jovem paciente pôde perceber que se encontrava hospitalizado e com sua mão esquerda reimplantada e envolta em curativos. Naquele mesmo dia, para espanto de toda a equipe hospitalar, o jovem desfez todos os curativos da mão esquerda e, com sua mão direita, puxou e removeu de vez a mão esquerda!

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Os vírus de computador

Foi a partir da década de 90 que as pessoas começaram a adquirir computadores para uso pessoal. Aos poucos foram surgindo diversas escolas oferecendo cursos de informática básica, onde os alunos podiam aprender noções de sistema operacional, na época o Windows 3.11, e usar superficialmente aplicativos como o Word, Power Point e Excel. Mas sem antes passar pelo Paintbrush...

Dona Esmeralda, ouvindo algumas notícias sobre um tal de vírus de computador, logo ficou bastante preocupada com seu netinho, João Miguel. Um dos pioneiros da área de Tecnologia da Informação na cidade em que morava, João Miguel era programador e instrutor de diversos cursos para usuários básicos e avançados. Por mais que fosse já um profissional competente, para Dona Esmeralda ele  era o Joãozinho, seu netinho amado!

- Joãozinho, meu querido! Cuidado com esses tais vírus de computador... Eles são muito perigosos! - alertou Dona Esmeralda - Você já pensou em usar máscaras e luvas para trabalhar? Não quero que você pegue um vírus desses e fique mal de saúde...

Joãozinho, quer dizer, João Miguel compreendeu perfeitamente a preocupação de sua avozinha, que certamente não compreendia o que era um vírus de computador e acreditou que poderiam ser como os vírus da biologia. Assim, com todo o carinho e paciência do mundo, Joãozinho passou uns vinte minutos explicando à Dona Esmeralda sobre o que é um vírus de computador, que é apenas um software e só infecta as máquinas e que não pode fazer mal nem a ele nem aos demais usuários.

Dona Esmeralda ouviu atentamente toda a explicação de Joãozinho. Ao final, ele perguntou:

- Então é isso. Entendeu, Vó? Está mais tranquila agora?

Com um sorriso no rosto e olhar tranquilo, Dona Esmeralda respondeu:

- Claro, querido. Entendi tudinho. Mas, para deixar sua Avó tranquila, por favor sempre use luvas e máscaras quando for trabalhar no computador, tá?

segunda-feira, 28 de março de 2016

Merthiolate, Mercúrio e Band-Aid: as marcas mais lembradas pelas crianças dos anos 80

Outro dia, no meio das brincadeiras das minhas três gatinhas correndo pela sala, acabei sendo levemente atingida pelas unhas afiadas da Babuskinha. Mas não se preocupe, sobrevivi! Até porque logo após o acidente eu usei spray de Merthiolate, então ficou tudo bem!

O Merthiolate é meu conhecido desde minha época de criança, já que eu me acidentava com uma certa frequência e, portanto, tinha que usá-lo muitas vezes. Mas esse mesmo produto tinha uma grande diferença naquela época: Ele ardia. E muito.

Ardia tanto que a dor que sentíamos ao usá-lo era pior do que a que havíamos sentido no momento do acidente. Além disso, a tampa do frasco era acoplada a uma pequena haste com uma redinha retangular na ponta, que servia pra aplicar o produto diretamente nas regiões atingidas. Ver aquela redinha molhada com aquele líquido de cor vermelho-alaranjada, pingando, indo em direção ao joelho ralado era o pior pesadelo das crianças. Nossa salvação era quando havia o tal do Mercúrio no armário de remédios, pois este servia para o mesmo propósito que o Merthiolate, mas com uma grande diferença: não ardia. O problema era que às vezes o Mercúrio havia acabado (sim, muitos acidentes, muito uso), e no estoque de casa só restava o frasco de Merthiolate (impressionante como esse nunca faltava!).

No ápice da minha rebeldia infantil, decidi que não usaria mais o Mertiolate. Sofreria as consequências por não usá-lo, mas não permitiria que aquela redinha medonha se aproximasse dos meus machucados e arranhões. Foi então que eu ralei o joelho (ralei feio) e só aceitei usar Band-aid, sem Merthiolate, já que não tínhamos Mercúrio naquela ocasião. Dias depois, estava formada a famosa casquinha. Passei dias, semanas, repetindo o ciclo: Tira a casquinha, magoa a ferida, sangra de novo, espera formar nova casquinha. Tira casquinha etc. Mas não aceitei usar o Merthiolate e estava feliz por isso.

Esse ciclo se repetiu tantas vezes que, depois que a ferida finalmente sarou, até os pelinhos pararam de nascer na área atingida. Devem ter levado anos para voltar a crescer na área onde a casquinha apareceu e desapareceu sistematicamente.

Como o Merthiolate atual não arde, sempre o tenho por perto e faço uso quando necessário. Sem redinha e sem pesadelos!

terça-feira, 22 de março de 2016

Delícia de amizade

Outro dia marquei com uma amiga para nos encontrarmos, lanchar e bater um papo. Dia, horário e local fechados, eis que a amiga "farrapa" e nosso encontro é cancelado poucas horas antes do combinado. Reorganizei minha agenda e segui com a vida. Fazer o quê, né?

No dia seguinte, a fim de redimir-se, a amiga entrou em contato e me convidou para tomar um chá no fim da tarde daquele mesmo dia. Na realidade, um chai latte acompanhado de pão de batata, doce de leite e ricota. Mas não um chai latte qualquer, tampouco quaisquer pão, doce de leite e ricota!

Um chai latte especial, em cápsula, preparado em cafeteira de alta tecnologia. Um pão de batata recém saído do forno de uma padaria tradicional, uma das melhores da cidade. Doce de leite cremoso, de sabor suave, não enjoativo, produzido na fazenda de um amigo em comum. E ricota produzida na mesma fazenda, levemente temperada, com sabor que derretia na boca...

Enfim, esbaldei-me a degustar esse lanche-banquete-especialíssimo! Cada colherada de doce de leite, cada garfada de ricota, cada mastigada no pão de batata foi lentamente processada pelas minhas papilas gustativas que, por sua vez, enviaram repetidas mensagens ao cérebro de felicidade, paz, satisfação e prazer gastronômico!

Finalizado o lanche, a amiga perguntou:

- E então? Acho que eu estou perdoada, né?

Respondi, irônica:

- Claro que não! Hoje eu experimentei apenas uma amostra! Terei que provar várias outras vezes para poder avaliar adequadamente a qualidade desses produtos e aí, talvez, perdoar-lhe!

A amiga compreendeu perfeitamente a gozação e a finalidade da ironia... Que pena! Queria que ela tivesse levado a sério...

sábado, 12 de março de 2016

O marido distraído

- Thau, amor! - disse Tiago, dando um selinho em Sônia, que correspondeu com um largo sorriso e continuou seus afazeres domésticos.

Sônia e Tiago haviam se casado havia poucas semanas, mas a rotina de ambos já estava adaptada ao novo status civil do casal. Haviam decidido que, inicialmente, apenas Tiago trabalharia fora, enquanto caberia a Sônia realizar os cuidados com a casa.

Naquele mesmo dia, ainda no período da manhã, Sônia estava separando as roupas sujas para iniciar a lavagem. Como de praxe, primeiro verificava todos bolsos para evitar que algum material caísse no sistema de lavagem da máquina. E eis que naquele dia ela encontrou, no bolso de Tiago, um pequeno papel bem dobrado. Gelou... Desdobrando, seu coração pulou para a boca quando leu o que estava escrito...

Em caneta cor-de-rosa, com letra cursiva de característica bastante feminina, estava escrito um nome, que só poderia ser um nome de mulher! "Quem é essa mulher? E por que ela deu esse papel com o nome dela para meu marido?" - pensou Sônia, entre várias outras perguntas, enquanto caía num emaranhado de medo, raiva e ciúmes.

Sônia não trabalhou mais naquele dia. Deixou o montinho de roupas para lavar jogado no chão, ao lado da máquina. Não preparou almoço, não comeu nada além do café-da-manhã e ficou transitando da cama pro sofá durante o resto do dia, ora chorando, ora imaginando mil e uma coisas que não queria que fossem verdade...

No fim da tarde, quando Tiago retornou, encontrou Sônia deitada no sofá, já cansada de tanto chorar por todo aquele dia... Assustado, perguntou:

- Que foi amor? O que aconteceu?

Sônia então lhe mostrou o papel e pediu explicações.

- Amor, juro que não sei, não lembro! Olha, deve ter sido o pessoal do trabalho, uma brincadeira... - carinhosamente confortou e tranquilizou Sônia - Vamos fazer o seguinte, amanhã eu pergunto quem fez isso e reclamo, pois foi uma brincadeira de muito mal gosto!

No dia seguinte, ao chegar ao trabalho, Tiago mostrou o papel aos colegas e perguntou:

- Gente, quem fez isso aqui? Vocês sabem que eu sou recém casado, minha mulher não gostou da brincadeira... e nem eu!

Todos os colegas negaram conhecimento daquele papel. Mas a solução do mistério veio com a observação de Paula, uma de suas colegas do trabalho:

- Tiago, você é muito esquecido mesmo, hein?

- Como assim? Você sabe o que é isso? - disse Tiago.

- Claro que eu sei, Tiago. Fui eu que escrevi esse papel e te dei. Lembra que dois dias atrás você estava bastante resfriado?

- Lembro! Mas e esse papel?

- Pois bem, lembra que eu comentei com você sobre seu resfriado e anotei nesse papel o nome do remédio que eu costumo tomar quando estou com os mesmos sintomas que você teve... Inclusive você comprou o remédio, tomou e melhorou, não foi?

Agora tudo estava esclarecido para Tiago. Paula estava certa: tudo isso aconteceu havia dois dias e ele, esquecido como sempre, havia apagado da memória o nome daquele medicamento.

A fim do dia, chegando em casa, mostrou o papel e a caixa do medicamento para Sônia, que abriu um grande sorriso ao decifrar toda aquela situação!

terça-feira, 8 de março de 2016

Meu filho quer cerveja...

- Mamãe, posso tomar cerveja? - disse Marquinhos, 5 anos, à sua mãe.

- Claro que não, meu filho! Cerveja é coisa de adulto, mas você ainda é criança!

Não era a primeira vez que Marquinhos fazia esse pedido à mãe. Em todas as reuniões de família e encontros de amigos dos pais de Marquinhos, em meio aos comes e bebes comuns, havia sempre a tão apreciada cervejinha para os adultos. Marquinhos observava o quão os adultos e, particularmente, seu pai apreciavam aquela bebida "de adulto" e, a cada pedido negado para prová-la, sua curiosidade só aumentava.

A mãe de Marquinhos, cautelosa, observava esse comportamento e sua preocupação crescia... E se a curiosidade crescesse a ponto de Marquinhos provar uma bebida alcóolica às escondidas, ainda criança? O resultado disso poderia ser trágico... Ela sabia que estava em suas mãos tomar uma medida para eliminar esse problema definitivamente. Só não sabia ainda como.

Até que, numa reunião de família, ela teve uma ideia... Aguardou que Marquinhos repetisse a pergunta e pôs em prática seu plano:

- Mãe, quero cerveja!

Marquinhos deve ter imaginado que sua mãe lhe responderia da mesma forma de sempre, mas dessa vez ele teve uma surpresa:

- Marquinhos! - respondeu sua mãe com olhos esbugalhados e tom de voz castigador - Venha aqui agora! Você vai ter que tomar cerveja agora mesmo!

Marquinhos se assustou e seu coraçãozinho nunca havia batido tão forte como naquele dia. Enquanto mantinha Marquinhos nessa situação de medo, sua mãe pegou um copo descartável, colocou  dois dedos de refrigerante e, cuidadosamente, colocou um pouco de espuma de cerveja por cima, o suficiente para formar um grande colarinho no copo.

- Venha aqui! Tome agora! - Ordenou, em voz alta!

Então ela segurou Marquinhos com firmeza e encostou o copo em seu rostinho, o suficiente apenas para que Marquinhos sentisse o cheiro da espuma que estava no copo. Ela sabia muito bem que o cheiro da cerveja seria suficiente para Marquinhos se desagradar da ideia de bebê-la. Marquinhos berrou, debateu-se e quis afastar-se dela e do copo. Sua mãe então o soltou e deixou que ele corresse para longe da mesa de bebidas, exatamente como ela havia imaginado.

Depois desse "trauma calculado", Marquinhos passou toda a infância e adolescência sem qualquer interesse por bebida alcoolica. E esse desinteresse duraria toda a sua vida, exatamente como sua mãe havia imaginado!

sexta-feira, 4 de março de 2016

O voo de Mariana

Sempre disseram que Mariana tinha um temperamento forte, habilidade com as palavras e poder de argumentação e convencimento. Nada mais justo! Ao longo de sua infância e adolescência, Mariana desenvolveu essas habilidades de tal forma que, ao ingressar na Faculdade de Direito, sentiu-se em casa. A cada semestre, Mariana acumulou novos conhecimentos e experiências de tal modo que, concluída a graduação, era uma profissional altamente competente.

O único problema de Mariana era sua ilusão de invencibilidade. Acreditava ser imune a erros, supervalorizava seu nível de conhecimento e inflava seu ego a cada nova batalha judicial vencida. Suas relações familiares e de amizades foram bastante afetadas por seu comportamento presunçoso, mas, ainda assim, metade das pessoas que a conheciam a amavam. A outra metade preferiu distanciar-se dela o máximo que pôde.

Houve então uma ocasião em que a realidade deu uma dura lição para Mariana. Havia aproveitado um fim de semana de festas e baladas, mesmo havendo uma viagem marcada para o início da semana. Deixou para aprontar as malas poucas horas antes do horário estabelecido para o embarque. Além disso, acordou mais tarde do que deveria naquele dia do voo.

Entrou no táxi com sua bagagem quando já faltavam menos de quarenta minutos para a decolagem. Se o aeroporto estivesse a menos de dez minutos de sua casa, Mariana poderia chegar com trinta minutos da decolagem e haveria uma chance de conseguir embarcar. Mas o aeroporto de sua cidade ficava distante de sua casa e o trajeto não demoraria menos de 30 minutos, mesmo seguindo o taxista numa velocidade acelerada.

Resultado: Mariana chegou à mesa do guichê do aeroporto para despachar a bagagem dez minutos antes do horário estabelecido para a decolagem. A funcionária da empresa aérea que a atendeu informou que, infelizmente, o procedimento de embarque já havia sido encerrado e, portanto, Mariana não poderia despachar a bagagem, nem embarcar.

Mariana tentou usar todo seu poder de argumentação e convencimento, mas foi em vão. Pelas normas da empresa aérea, impressas no cartão de embarque de Mariana, o passageiro deveria fazer o checkin, despachar a bagagem e estar presente no portão de embarque a antecedência necessária.

Mariana tomou outro táxi e retornou para casa, chorando. Chegando em casa, teve que comprar outra passagem de ida, mas só havia voos disponíveis para o dia seguinte. E pelo triplo do preço de sua passagem original.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Talita e o brigadeiro

As crianças brincavam e corriam de um lado para o outro, enquanto os adultos conversavam, sentados às mesas, e comiam os canapés e docinhos servidos ao som das músicas da Xuxa. Para todas as crianças ali presentes, era a festinha de aniversário da Carol, então empolgadíssima com a comemoração de seus sete aninhos de vida. Mas para Talita, cinco anos, a situação era um pouco incômoda.

Enquanto o momento era de brincadeiras, Talita se divertia à vontade. O tempo passava e seu objetivo era apenas um: brincar o máximo possível. Essa era a estratégia para manter-se longe do bolo, dos doces e das pessoas que insistiam em oferecer-lhe refrigerantes e qualquer prato de sabor doce.

Não, Talita não sofria de diabetes e não tinha nenhum impedimento orgânico para consumo de açúcar. Ela apenas não gostava do sabor e não consumia nenhum alimento doce, independentemente de ser uma fruta ou uma fatia de bolo de chocolate.

O que incomodava Talita naquela festinha era o fato de parecer ser a única criança que não se interessava por pirulitos e brigadeiros. Enquanto suas amiguinhas se dirigiam à mesa de doces e atacavam todos os brigadeiros, beijinhos de côco, surpresas de uva e docinhos finos, embalados em plástico colorido, Talita seguia tímida para a mesa de salgados e procurava saber qual era o recheio da empada a fim de certificar-se que não havia sinal de doce naquele salgado. Provava apenas um pedacinho e acabava desistindo quando sentia uma pontinha de doce na massa da empada.

Mas, naquela noite, Talita sentia-se especialmente incomodada com as perguntas das amiguinhas e tias curiosas demais.
- Você não quer brigadeiro?
- Mas como assim você não gosta de pirulito?
- Nem uma balinha você quer?
- Olha, Mãe! É aquela menina que eu falei! Ela não come doce!
- Ela não come nem pãozinho de queijo porque acha o sabor doce!

Os olhares, comentários e perguntas se repetiam a todo instante e Talita sentia-se cada vez mais constrangida. Parou pra pensar se não era exagero dela, se o sabor doce era algo tão insuportável a ponto de compensar toda aquela sensação de ser a "criança diferente". "Será que eu sou tão diferente assim?" - pensou Talita naquela noite.

Tentou lembrar da última vez que havia tentado comer algo doce: Fazia tanto tempo que nem se lembrava. Foi então que tomou uma decisão: "vou provar um pedacinho de doce, só pra ver se não é exagero meu... Quem sabe eu até goste, né? Afinal, todo mundo gosta..."

Talita então aproximou-se cuidadosamente da mesa de doces e, discretamente, tirou um brigadeiro. Afastou-se da música, das mesas de comidas e das outras crianças: não queria chamar a atenção sobre estar provando um doce naquele momento. Olhou para o brigadeiro e teve uma sensação de que aquilo não iria dar certo, mesmo sendo apenas uma menina de cinco anos de idade. Por via das dúvidas, aproximou-se da porta do banheiro... Vai que, né?

Olhinhos fechados, chegou a hora da verdade. Seus dentinhos apenas beliscaram um pedacinho da massa e dois ou três granulados da cobertura. A única coisa que Talita se lembra depois daquele momento foi de ser amparada pela mãe, no banheiro, numa crise de vômito que durou até o dia seguinte. Depois daquela ocasião, Talita não teve mais dúvidas quanto ao seu paladar restrito. E nunca mais voltou a sentir-se constrangida por rejeitar os doces que lhe foram oferecidos.