quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Grávida por conveniência

Aos 15 anos de idade, Thaís era uma menina extrovertida e de bem com a vida. Tinha os olhos azuis, claros como o céu, e seus cabelos loiros iam até a cintura. Era boa aluna na escola, boa amiga com as que lhe eram próximas e boa filha em seu ambiente familiar.

Aos 16 anos, Thaís continuava a mesma, exceto por uma pequena mudança em sua aparência: havia ganhado alguns quilinhos a mais. Isso a fazia sentir-se um pouco desconfortável, mas estava sempre arrancando risos e mais risos das pessoas à sua volta com as piadas que fazia consigo mesma. A comédia era a sua arma na luta para manter a auto-estima elevada.

Sua brincadeira favorita era inflar o estômago e aparecer para os mais íntimos com a barriga arredondada, passando a mão suavemente e simulando uma expressão de coitadinha. Todos já conheciam essa brincadeira, mas as situações em que ela aparecia e, repentinamente, transformava-se em "grávida", eram tão inusitadas que todos caíam na gargalhada sempre que o teatrinho era repetido.

Um belo dia, sua mãe pediu-lhe que pagasse uma conta no Banco. Na época não havia opções de pagamento por Internet Banking ou Casas Lotéricas. Menos ainda existia a hipótese do Smartphone. Só restava a opção de enfrentar a fila para usar os Caixas Eletrônicos.

Naquele dia, Thaís entrou no Banco e sentiu um alto desânimo com a expectativa de passar pelo menos 40 minutos para chegar a sua vez de usar um dos Caixas Rápidos que, naquele dia, estavam mais para "Caixas Lentos". Caminhou desolada, procurando o final da fila, até que percebeu algo que fez acender uma pequena "lâmpada" de "ideia" em sua mente.

Olhou para o Caixa Preferencial, destinado ao atendimento prioritário de idosos, portadores de deficiência, pessoas acompanhadas de crianças de colo e... gestantes! Não havia fila para aquela máquina, que estava sendo usada por um idoso e, portanto, logo estaria disponível. Sem parar para pensar, já se viu inflando sua barriga arredondada o máximo que pôde, caminhando em direção ao Caixa Preferencial, repetindo a expressão facial e os toques suaves com as mãos que tanto havia repetido em suas sessões de piadas para os amigos.

Cinco minutos depois, saía do Banco feliz por ter atendido ao pedido da Mãe e por ter mais uma história hilária para contar. Mas, passados alguns minutos, teve uma sensação estranha: sentiu que, embora não tivesse atrasado o atendimento de nenhum usuário do Caixa Preferencial, achou que não foi justo passar à frente de todas aquelas pessoas que estavam enfrentando a fila honestamente. Sentiu-se desonesta e arrependeu-se daquela situação.

Ao entregar a conta paga para sua mãe, contou-lhe o ocorrido, inclusive que havia se arrependido da "gravidez simulada". Sua mãe respondeu-lhe:

- Minha filha, todo mundo, em algum momento da vida, fica tentado a fazer algo que não é certo e acaba fazendo. Acaba, inclusive, contando a si mesmo a mentira de que era para ter feito aquilo mesmo, que o fez porque é mais esperto do que os outros. Mas Deus está vendo tudo, minha filha, e Ele viu que você se arrependeu. Use seu arrependimento para crescer, não para martirizar-se.

Thaís tranquilizou-se com as palavras que ouviu de sua mãe. Continuou a repetir a piada da "falsa gestante", mas decidiu nunca mais usar a "fantasia" como naquele dia do Banco. Só voltou a usar o Caixa Preferencial anos mais tarde, mas com uma barriga de gestante de verdade!

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