sábado, 14 de novembro de 2015

Os barquinhos de papel

- Papai, faz um barquinho de papel pra mim?

O pai de Mel já esperava aquele pedido. Ao fim de um dia chuvoso, pequenas poças d´água formavam-se no jardim e, passada a chuva, aos olhos de Mel, aqueles pequenos lagos pediam barcos para serem velejados pela leve ventania. Mel apenas esperou a chuva passar para fazer o pedido ao pai.

- Você quer um barco? - fez-se desentendido - Então deixe-me mostrar a você como se faz!

- Não, não Papai! Eu quero que o senhor faça um pra mim!

O pai de Mel tentava insistir para ensinar à filha o método de dobradura do barquinho, mas ela sempre recusava a instrução.

- Mas Mel, vamos aprender a fazer um barquinho? Assim você vai poder fazer quantos barquinhos quiser, sempre que quiser, sem precisar do pai pra isso! Vamos?

- Não, Papai! Faz um barquinho pra mim! Por favor! Eu quero um barquinho seu!

A insistência do pai não era maior do que a teimosia da filha, de modo que o pai acabava cedendo e atendendo ao pedido. O barquinho então era posto para flutuar nos pequenos lagos do jardim, enquanto Mel observava e sorria para o pai.

Os anos se passaram e, aos poucos, Mel foi deixando sua meninice e seus pedidos de barquinhos enquanto tornava-se adulta. O tempo passou mais um pouco e o pai de Mel tornou-se o Vovô de Thaís, filha de Mel.

Quando Thaís tinha seis anos, estando na casa do Vovô num dia chuvoso, ao observar as poças d´água no jardim, virou-se para o Vovô e perguntou:

- Vovô, faz um barquinho de papel para mim?

O Vovô não pensou duas vezes. Pegou o primeiro pedaço de papel que encontrou e fez as dobraduras com a mesma agilidade com que fazia os barquinhos para Mel. Entregou o barquinho para Thaís e comentou:

- Mel, lembra-se que era você quem gostava de barquinhos de papel? Mas como você nunca quis aprender a fazer o barquinho, você sempre dependia de mim para fazer...

- Papai, eu sempre soube como fazer barquinhos de papel.

- Hã? Como assim? E por que você sempre me pedia pra fazer?

- Porque eu gostava mesmo dos barquinhos que o senhor fazia! Para mim, eles eram mais do que simples pedaços de papel dobrados: eu gostava de ver como o senhor fazia para dobrá-los perfeitamente... cada dobra era tão bem medida, tão bem cuidada, e o resultado era um barquinho tão perfeito, que eu não tinha interesse de fazê-los eu mesma... eu queria os seus barquinhos porque eles representavam o cuidado, amor e carinho que o senhor demonstrava por mim...

O pai de Mel, avô de Thaís, ficou tão comovido com as palavras de Mel que, desde então, a cada visita de Mel e Thaís, as recebia com dois barquinhos de papel prontos para entregá-las. Independentemente das condições climáticas, havendo ou não pequenos lagos no jardim.

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