terça-feira, 17 de novembro de 2015

Mestrado gera traumas?

No Campus da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, é ofertada aos alunos e à comunidade em geral uma vasta programação de atividades, que vão desde esportes diversos no Centro de Educação Física, até defesas de teses e dissertações em todos os prédios onde há programas de pós-graduação Stricto Sensu. O momento das defesas costuma ser prestigiado por vários alunos, que têm seus vários motivos para interessarem-se em assistir às defesas. O motivo mais comum costuma ser o interesse de ouvir as observações da banca examinadora para evitar cometer determinados tipos de erros quando do desenvolvimento do trabalho de sua própria autoria.

Amanda havia se programado para comparecer e assistir à defesa de uma dissertação de mestrado cujo título a havia interessado. No dia, horário e local informados no cartaz de divulgação lá estava ela, acomodada num dos assentos do auditório com seu bloquinho de anotações pronto para ser castigado com todos os garranchos que conseguisse anotar enquanto ouvisse a apresentação e as considerações dos professores examinadores. Ela não esperava testemunhar o que estava por vir.

O autor do trabalho iniciou as explanações, fazendo uso do projetor multimídia para exibir os slides da apresentação. O desenvolvimento de um trabalho de mestrado costuma durar de um ano e meio a dois anos, que são consolidados nas páginas de um texto chamado "dissertação", com número de páginas bastante variável, mas pode-se esperar cerca de 100 páginas ou mais. A apresentação oral deve ser realizada em até 20 minutos, onde o autor costuma esforçar-se ao máximo para condensar um trabalho realizado entre 18 e 24 meses. São 1200 segundos disputadíssimos pelo autor, que faz questão de cada segundo para a sua exposição. Mas Amanda não acreditou no que viu na apresentação daquele trabalho.

Em menos de dez minutos, o autor já estava expondo o slide com os dizeres "Muito Obrigado!", indicando que a exposição já havia sido concluída. Amanda e os demais ouvintes no auditório imediatamente transferiram a atenção para os membros da banca e aguardaram ansiosamente o que eles tinham para dizer. O primeiro professor, ao tomar o microfone, fez a seguinte pergunta ao autor:

- Fulano, tenho uma primeira pergunta para você. Quanto tempo, ao todo, você levou desenvolvendo esse trabalho que aqui temos em avaliação?

E o Fulano, todo sem jeito, respondeu:

- Bem, algumas coisas aconteceram... Eu mudei de orientador depois de alguns meses, depois mudei de tema, depois isso, depois aquilo... E, quando comecei a escrever o texto, eu só tinha o prazo de três meses... e assim eu fiz, mas me dediquei exclusivamente a isso e só dormi 4 horas por dia nesse período...

- Bem, Fulano. Tenho uma ótima notícia para você. A partir de hoje, você terá o prazo de três meses para transformar esse texto, que você nos apresentou, numa dissertação de verdade.

Burburinhos foram ouvidos em todo o auditório. Amanda arregalou os olhos e deixou seu maxilar pendente. Enquanto isso, o professor continuou a fazer suas considerações e explicou que aquele trabalho que, entre outros defeitos, não possuía conexão entre o título e os objetivos, nem metodologia embasada e adequada, nem descrição dos resultados, nem conclusões relacionadas aos objetivos, não poderia ser considerado uma dissertação.

Na época, o então "Orkut", recheado de comunidades dos mais diversos tipos, possuía uma com o nome de "Mestrado gera traumas?". Certamente o "Fulano" tinha uma boa justificativa para participar dessa comunidade.

Meses depois, Amanda acompanhou o desenrolar da situação de Fulano e viu que o trabalho dele acabou sendo aceito depois de uma nova defesa. Depois de novas considerações da banca, o trabalho deve ter sido, finalmente, transformado numa dissertação de verdade.

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