quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Mainha, já esfriei!

Três crianças numa mesma casa aprontavam muita coisa: brincavam juntas, assistiam TV, andavam de bicicleta, faziam birra, choramingavam... e disputam tudo o que podiam e queriam. Quando aconteciam os problemas mais sérios, recorriam às instâncias superiores: Painho e Mainha. Mas a avaliação desses "problemas mais sérios" ficava por conta das crianças.

- Mainha, o Léo tirou o meu brinquedo do lugar onde eu tinha deixado! - minha irmã se queixou com minha mãe, e o tom de voz indicava que a coisa era séria.

- Oh, céus, que problema sério! - respondeu minha mãe com ar de ironia, o que deixou a minha irmã ainda mais chateada com a situação.

- Mas ele tirou, Mainha! Eu tinha deixado aqui porque eu estava brincando, mas eu iria voltar depois! Aí eu cheguei e não encontrei o brinquedo! - continuou a reclamação.

- Ohhhh, vamos resolver esse problema seriíssimo! - Minha mãe partiu então para resolver o problema de maneira civilizada e diplomática – Léo, cadê o brinquedo da sua irmã? - Ele apontou – Foi você que tirou dali? - Ele respondeu afirmativamente – Quando você tirar uma coisa do lugar, tem que botar de volta, não é? Então pegue o brinquedo e coloque de volta no lugar.

Dadas as instruções e explicações, o Léo obedeceu e colocou o brinquedo de volta ao lugar de onde nunca deveria tê-lo retirado.

Pronto! Resolvido o problema? - minha mãe se voltou para a autora da ação, que balançou a cabeça respondendo que sim e, logo em seguida, voltou a brincar tranquilamente. Pelo menos até o próximo conflito...

Muitas vezes a solução diplomática era suficiente para esses problemas “sérios”. Mas eventualmente o grau de seriedade se elevava para além das conversas amigáveis e os ânimos se exaltavam um pouco mais do que o normal. Nesses momentos, minha mãe adotava uma medida que foi bastante útil não somente para resolver os problemas de curto prazo, mas também para aprendermos a controlar nossas emoções: separava a criança "agitada" das outras e esta deveria ficar sozinha numa determinada área da casa (normalmente o quintal) até que seu ânimo se normalizasse. Minha mãe chamava esse processo de "esfriamento".

Para determinar se a criança estava "quente", minha mãe adotava critérios intuitivos, mas ao mesmo tempo objetivos. Ao olhar para a criança, se percebesse certa agitação, ela dizia:

- Deixe-me ver seu olho... Cadê a mãozinha? É.. Estou vendo que está quente... Vai ter que esfriar... - Uma observação direta dos olhos e das mãos da criança eram o suficiente para diagnosticá-la como "quente" ou "fria".

E assim, todas as vezes em que eu ou meus irmãos estávamos, ao olhos da minha mãe, “quentes”, sabíamos que teríamos que ficar isolados e quietos, até que “esfriássemos”. Não havia um tempo pré-determinado para esse tempo de isolamento – cada criança ficava isolada o tempo suficiente para seu esfriamento. Provavelmente durava apenas alguns minutos.

- Mainha, já esfriei! - avisávamos quando sentíamos que já estávamos calminhos... ou nem tanto, mas queríamos sair do castigo mais cedo.

- Já esfriou? Em tão pouco tempo? Deixe-me ver... Hum... Não esfriou, não! Vai ficar mais um pouquinho até esfriar mais!

Não havia possibilidade de burlar a análise da minha mãe. Só éramos liberados quando havíamos “esfriado” de verdade!



Assim, graças a esse método infalível de esfriamento ao qual fomos submetidos durante nossa infância, atualmente somos considerados pessoas tranquilas, que não se estressam com facilidade. Na realidade, nós nos estressamos sim. Mas, depois de alguns minutos “esfriando”, estamos prontos para resolver todos os problemas com a tranquilidade necessária!

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