sábado, 3 de outubro de 2015

Você já pode ir...

Era uma manhã chuvosa. Enquanto percorriam a passos rápidos e em silêncio os corredores do Hospital, Dona Flávia e Francisco, seu filho, sentiam um redemoinho de emoções golpeando o estômago, ressecando a garganta e acelerando o coração. Não fossem os pés encharcados e os guarda-chuvas pingando pelos corredores, eles nem se lembrariam daquela triste chuva.

Não era horário de visitas na UTI, mesmo assim os plantonistas permitiram a entrada de Dona Flávia e seu filho, ansiosamente aguardados na ala onde se encontrava o leito de Seu Antônio. Entubado e com o corpo coberto por todos os aparatos cirúrgicos possíveis, Seu Antônio estava acordado e consciente de seu estado. Sentia-se amordaçado pelo tupo e esparadrapos em seu rosto, mas sabia que, sem eles, já não estaria mais respirando. Depois de mais de vinte dias nesse internamento, ele sabia que seria sua última vez no hospital e que não voltaria mais para casa.

Dona Flávia e Francisco não estavam apenas visitando Seu Antônio: estavam lá para a última despedida. Apesar do medo e tristeza no coração acelerado de Dona Flávia, ela olhou para os olhos de Seu Antônio e segurou a mão direita dele com leveza para não machucar ainda mais sua pele fina e fragilizada, escondida entre esparadrapos e agulhas. Ao som da chuva leve e da aparelhagem hospitalar, não contendo as lágrimas, mas segurando a emoção o quanto podia, respirou fundo e começou a falar, calma e pausadamente:

Meu amor... você já pode ir...

Você lutou com todas as suas forças contra essa doença, fizemos tudo, tudo o que podíamos, nós e os médicos...

Mas o mais importante é que você viveu uma vida digna em todos os sentidos. Você acertou muito e aprendeu o que tinha de aprender com seus erros.

Você soube ser pacífico sem deixar de lutar pelos seus valores.

Você buscou e alcançou o nível profissional e financeiro que você queria, regado a bastante suor do seu rosto e mantendo firme a sua integridade para dar à sua família uma vida confortável em todos os sentidos...

Você equilibrou sua vida profissional com a pessoal de tal forma que alcançou a excelência em todos os papéis que você viveu: profissional, pai, esposo, amigo, filho, irmão, tio, cidadão e todos os outros...

Você aprendeu a compreender as pessoas e a ter paciência com elas.

Você aproveitou muito bem a vida e tudo de belo que poderia ser apreciado.

E estar perto de você sempre foi maravilhoso para todos. Digo mais: foi uma honra!

Nós ficaremos bem.

Sim, sentiremos muitas saudades de você.

Sempre nos lembraremos de você como o homem maravilhoso que você sempre foi.

E sempre seremos gratos por tudo o que você fez por nós.

Você já pode ir, meu amor...

Nós ficaremos em paz.

Amaremos você para sempre...


Francisco permanecia do outro lado da cama, segurando a mão esquerda do pai enquanto afagava os cabelos. Enquanto chorava, ouvia a fala de sua mãe. Preferiu manter-se em silêncio. A tristeza que sentia era grande demais para pedir a palavra.

Seu Antônio fez um movimento sutil com a cabeça, em sinal afirmativo, fechou e abriu os olhos lacrimejantes e olhou para sua esposa e seu filho pela última vez. Fechou mais uma vez os olhos. E assim, sentindo o tremor e as lágrimas de sua esposa e seu filho, ciente de que cumpriu sua missão e que deixaria sua esposa e filho continuarem com as deles, ainda ao som daquela chuva fina, ele se foi. Em profunda paz.

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