terça-feira, 6 de outubro de 2015

O medo do elevador

João sempre detestou ter que usar elevadores. Quando podia, preferia encarar os degraus para alcançar o piso de destino, independentemente da quantidade de andares. Mas agora, não possuindo o preparo físico suficiente para suportar o peso da idade e dos problemas de saúde que o acometem, não há mais escolha para João: diariamente ele precisa usar um dos elevadores do prédio onde trabalha para chegar ao quarto andar.

Com o passar dos meses e anos, João acostumou-se com a situação de tal forma que até sozinho ele aprendeu a usar um elevador,  o que pode parecer elementar para os usuários comuns, mas não para João: usar o elevador sozinho é para ele a experiência mais temerosa possível. É o momento em que o medo surge em sua máxima intensidade. Mas ele fica ali, paralisado, aparentando naturalidade, apesar dos olhos arregalados enquanto o painel do elevador segue sua demorada contagem até o número 4.

"Se só tem tu, vai tu mesmo!" - pensa todas as vezes que entra naquele cubo gigante, frio, fechado e metálico. "Pelo menos são só 4 andares" - a viagem é curta o suficiente para manter-se sob controle, sem que as reações involuntárias provocadas pelo medo comecem a se manifestar.

Todos os elevadores daquele edifício empresarial possuem um monitor de 14 polegadas apresentando flashes com as notícias do dia e algumas propagandas, servindo como entretenimento para as pessoas enquanto seguem o trajeto vertical. Mas para João isso é irrelevante: como ele só pensa em descer o mais rápido possível, nada o distrai!

Houve um dia em que João entrou sozinho no elevador, como de costume, para iniciar o expediente. Apertou o botão do quarto andar e respirou fundo enquanto as duas folhas da porta metálica se fecharam. Não demorou para João perceber que o elevador não havia se movido. Olhou novamente para o painel e percebeu que o botão do quarto andar ainda estava apagado. "Hoje eu estou é doido!" - pensou, enquanto apertava o botão pela segunda vez, não lembrando ao certo se havia ou não apertado o botão corretamente. Dessa vez ficou atento e viu que a luz do botão foi acesa. Mas logo depois ela apagou.

Foi o suficiente para o medo assumir o controle sobre João. Já suando, apertou o botão do segundo andar para ver se funcionava e aconteceu o mesmo problema. E assim apertou desesperadamente os botões do primeiro, terceiro, quarto (mais uma vez) e todos os outros andares do prédio. Nenhum botão acendia e o elevador continuava estacionado.

O medo deu lugar ao pânico. Sentindo-se sozinho, preso naquele ambiente fechado e metálico, só havia uma coisa que poderia fazer naquela situação: gritar por socorro, o mais alto que podia, enquanto esmurrava  a porta metálica, na esperança de ser ouvido por algum transeunte no hall.

E ele foi ouvido, ou melhor, visto através da câmera de segurança do elevador. Os vigilantes prontamente verificaram que o painel do elevador não estava funcionando e tentaram se comunicar com João através do sistema de áudio e nem este funcionava. Em menos de um minuto o vigilante já estava em frente ao elevador e acionou o botão para abrir a porta e, finalmente, liberar João.

Ao sair do elevador João estava esbaforido, suando e com as mãos tremendo. Naquele dia não usou as escadas, não foi ao trabalho. Decidiu voltar para casa e lá permanecer até se recuperar do susto.

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