sábado, 17 de outubro de 2015

O carro branco do outro lado da rua

Júlio havia mudado de cidade para iniciar o curso universitário. Entre as idas e vindas com destino à biblioteca, às salas de aula e aos laboratórios, percebeu que aquela menina sempre seguia os mesmos trajetos que ele. E, por algum motivo, a presença dela chamava tanto a atenção dele que, por onde passava, estava sempre a procurando quando percorria os caminhos do Campus.

Tímido, não conhecendo ninguém na cidade e ainda não entrosado com os colegas de classe, com o passar dos dias e semanas Júlio havia visto a menina em várias ocasiões, mas continuava desconhecendo o nome dela e ainda não havia aparecido uma oportunidade conveniente o suficiente para que ele se dirigisse a ela para, pelo menos, trocar um "oi!".

Depois de algumas semanas, foi convidado a participar de uma pequena confraternização dos colegas de classe. Ao chegar no local, seu coração disparou ao ver que a menina, que era uma das amigas das colegas da faculdade, também estava presente. Foram finalmente apresentados e começaram a conversar. Agora já sabia o nome da menina: Gabriela!

Naquela noite, conversaram bastante sobre temas variados. Descobriram alguns pontos em comum e o papo foi tão agradável que nem perceberam o quanto havia passado o tempo e que a festa já estava no fim. Educadamente, ofereceu carona a ela e suas amigas, já que estava de carro. Contrariando sua torcida, ela seria uma das primeiras a serem deixadas em casa, considerando a rota que ele faria e os destinos das outras moças.

Ela morava num conjunto residencial popular. Parecia um grande labirinto de casas iguais, ruas extensas e  quadras que se diferenciavam apenas pela numeração. Mas, entretido com as conversas no carro, acabou prestando atenção num único ponto de referência da casa de Gabriela: um carro branco estacionado no lado oposto da rua. Despediram-se com dois beijinhos no rosto. Ela entrou em casa e Júlio seguiu seu itinerário de "entregas" até chegar em casa.

A semana passou e ele só pensava em voltar a ver Gabriela pelo Campus, como de costume. Mas passou segunda, terça, quarta e nada. Chegou a quinta-feira e nada. Na sexta, a mesma coisa: nada de Gabriela. Ao chegar o sábado, decidiu telefonar. Naquela época, o telefone fixo era a única opção para se entrar em contato com alguém. Conversaram, conversaram e conversaram por telefone. Marcaram então para ir ao cinema.

No horário combinado, Júlio estava dirigindo pelo conjunto habitacional onde morava Gabriela. Não foi difícil refazer o caminho até a quadra e a rua da casa dela. O problema foi encontrar a casa. Cadê o carro branco que estava parado no lado oposto da rua? Esse havia sido o único ponto de referência que ele lembrava. E, numa época em que não havia celular e smartphone, não havia a possibilidade de telefonar para tirar a dúvida quando já se estava dirigindo.

Sentiu certo desespero. Seguiu com o carro pela rua, indo e voltando, numa tentativa desesperada de tentar lembrar qual era a casa dela. Mas todas as casas eram iguais, exceto pelo número, que ele não havia anotado e nem lembrava qual era. Continuou seguindo, sem rumo certo, tentando dar uma chance à sorte.

Por acaso, a menina apareceu na porta de casa no momento em que ele estava passando por perto. Estacionou rapidamente, como se soubesse que aquela era a casa. Desceu do carro para cumprimentá-la e, antes de voltarem ao carro, daquela vez ele teve o cuidado de observar e gravar mentalmente o número da casa. Não precisou anotar. Aquele número ficou tão gravado em sua memória como ficou o episódio. Daquele dia em diante, passou a ter mais atenção para memorizar pontos de referência fixos de todos os lugares para onde teve que ir.

Um comentário:

  1. Me levou a imaginar a cena! Que bobo, mas, ao mesmo tempo, romântico! Acho que se não houvesse tanta tecnologia, essa situação seria mais fácil de ocorrer nos dias de hoje. Tem momentos que eu não suporto o celular!! É desculpa pra tudo!!
    Gostei da historinha!

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