sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Mergulhando no Riacho do Salgadinho

Houve um tempo em que bater nos filhos era o principal método de "educação" doméstica. Não comeu toda a comida do prato na hora do almoço? Lapada! Não fez a lição da Escola? Vai apanhar de cinturão e ficar ajoelhado no milho! Fez birra fora de casa? Vai levar beliscões e, chegando em casa, apanhar! Naquela época, a tolerância era zero para as crianças que ousassem fazer malcriação ou cometer qualquer erro.

Naquela mesma época, o Riacho do Salgadinho ainda era um Riacho de verdade. Quase não havia lançamento de esgoto em suas águas. Em vários trechos era possível pescar e os peixes eram preparados e saboreados sem qualquer temor. Também era possível divertir-se banhando-se em suas águas, mas isso era coisa da molecada.

Falando em molecada, Rui, então com seus dez anos de idade, mais ou menos, costumava atravessar a pé a Avenida Maceió (atual Avenida Buarque de Macedo) para voltar da escola para casa, que ficava na Praça 13 de Maio. No caminho passava pela pequena ponte sobre o Canal do Riacho do Salgadinho, nas proximidades da Igreja Nossa Senhora do Carmo.

Na época, a ponte era dividida em três partes, sendo uma para o trilho do trem e duas para os veículos e pedestres, que podiam usar uma calçada bem estreita, com menos de um metro de largura, espremida entre a pista dos veículos e o pequeno guarda-corpo, mais decorativo que seguro. O trilho do trem ficava suspenso sobre as barras metálicas e as pequenas tiras de madeira, sem o "fechamento" de concreto que havia nas áreas para veículos e pedestres da ponte. Ou seja: a ponte do trem era vazada e, claro, imprópria para a passagem de pedestres.

Mas sabemos que um molequinho não é um pedestre comum. Um moleque que se preza gosta mesmo do friozinho na barriga e está sempre à procura de novas aventuras e fortes emoções... Com três possíveis passagens, sendo uma para veículos (perigosa demais, com risco de atropelamento), uma para pedestres (fácil demais, todo mundo passava por lá, apesar da segurança não muito provável) e um vazado, para os trens... Um belo dia, nosso molequinho decidiu testar seu equilíbrio da maneira mais emocionante possível: atravessando a ponte pela passagem dos trens. Pelo menos ele decidiu fazê-lo num momento em que não seria preciso disputar o espaço com um trem de verdade...

Mas, infelizmente para o nosso protagonista, o peso do material escolar pendurado nas costas não o ajudou naquela prova de equilíbrio. Chegando no meio da ponte, desequilibrou-se, balançou-mas-não-caiu e, como o material escolar não estava bem fixo nas costas do menino, acabou soltando-se e caindo, livro por livro, caderno por caderno, no Riacho. O menino parou e, decepcionado, pensou um pouco e imaginou o tipo de punição que receberia caso chegasse em casa sem seu material da escola. Não demorou para tomar sua decisão: acompanhar o material escolar em seu mergulho naquelas águas "quase-sem-esgoto" e resgatá-lo.

Ele prontamente pulou nas águas mais ou menos limpas do Riacho do Salgadinho, recuperou seu material totalmente encharcado e seguiu para casa. Não foi recompensado como imaginou, após tanto empenho naquele resgate exaustivo: chegando em casa, foi recebido com umas boas chibatadas por estar molhado e ter estragado o material escolar.

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