terça-feira, 29 de setembro de 2015

Momentos entre Pai e Filha

O pai havia levado a filha de 10 anos para um passeio do tipo "Pai e Filha" no fim da tarde daquele domingo. Ainda no carro, haviam conversado e brincado bastante. Depois de ter encontrado onde estacionar na Orla, haviam dado continuidade às conversas e brincadeiras enquanto caminhavam lentamente pelo calçadão, terminando o passeio quando a noite já havia chegado, ao sabor de uma bela tapioca. Mais tarde, já em casa, com o horário já avançado, o pai ainda estava terminando de organizar sua bagagem para a viagem de negócios que faria naquela madrugada.

De repente, percebeu que uma das camisas que ele desejava levar para a viagem não estava passada a ferro. Não havendo uma empregada disponível para aquele serviço naquele momento, decidiu a contragosto executá-lo ele mesmo. Foi quando percebeu que sua filha havia entrado no quarto e tinha uma pergunta a fazer:

- Pai, posso dormir aqui no seu quarto com meu saco de dormir?

- Não, minha filha. - cansado e apressado para terminar de preparar a mala, já não havia espaço para bom humor ou paciência - Já é tarde, Papai tem uma viagem pra fazer. Melhor você voltar para o seu quarto.

A menina, desapontada, insistiu:

- Mas pai... eu só queria colocar meu saco de dormir aqui, ao lado da sua cama... - enquanto falava, diminuía o volume de sua voz, ficando quase muda nas últimas palavras da frase.

- Não! Eu já disse que não, não foi? - nervoso com a insistência, reagiu de maneira mais rude do que firme, elevando o volume de voz um pouco mais do que faria normalmente.

Com as sobrancelhas franzidas e expressão de profunda tristeza, a menina não conteve as lágrimas e o início do  choro. O pai prosseguiu:

- Nós fizemos um passeio hoje à tarde, não foi? E foi um ótimo passeio, ou não foi? A gente brincou, conversou, comeu tapioca, fez tudo o que tinha direito. Mas agora eu estou nervoso, sabe por quê? Por que eu estou cansado e apressado pra terminar de arrumar essa mala, mas ainda tenho que passar ferro nessa camisa. Então, minha filha, não me atrapalhe e vá já pro seu quarto dormir!

Deu as costas para a menina e apenas ouviu os passinhos corridos saindo do quarto. Voltou aos trabalhos de organização da mala e, enquanto colocava os itens de higiene na mala, refletiu por um instante e, já não tão agitado, pensou ter exagerado em sua repreensão. "Não posso deixar o dia terminar desse jeito. Vou lá no quarto dela para pedir desculpas e dar um beijo em sua testa."

Chegando ao quarto da filha, mesmo na penumbra, percebeu que a cama estava vazia. Na verdade, todo o quarto estava vazio. "Onde será que ela está?" - pensou. Procurou no banheiro, na sala e na cozinha, mas não a viu em nenhum cômodo. Enquanto se perguntava onde estava a menina, foi até a cozinha para tomar um copo d´água, quando viu a luz acesa na área de serviço e ouviu sons que apontavam que lá estava a menina.

Ao chegar na área de serviço, surpreendeu-se com a cena encontrada: a menina havia montado a tábua de passar e estava usando o ferro elétrico para passar a camisa que ele havia mostrado e queria levar para a viagem, que a menina havia levado do quarto no momento em que o pai havia virado as costas. Ainda com as bochechas brilhando com as lágrimas recentes e um tanto desajeitada pela falta de costume de usar aquele eletrodoméstico, a menina disse, já finalizando a tarefa:

- Desculpa, pai... não sei passar direito...

Então o pai a abraçou, agradeceu pela camisa passada e pediu desculpas pelo modo como havia falado com ela. Deu-lhe um beijo na testa e a levou para o quarto dela, onde ela pôde pegar o saco de dormir e levá-lo para o quarto do pai, onde dormiu tranquilamente naquela noite.

(Baseado num trecho do livro "Mais velho, do meio ou caçula", de Kevin Leman)

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