domingo, 13 de setembro de 2015

Ei, cadê meu pote?

Sílvia e Roberto estavam namorando havia dois meses. Dona Lourdes estava começando a acostumar-se com a presença daquele rapaz em sua casa nos finais de semana. Ele dava mostras de ser um bom rapaz e o relacionamento, apesar do início recente, prosseguia com tranquilidade. Sérgio, irmão de Sílvia, tinha um ótimo entrosamento com Roberto.

Chegou um fim de semana em que Dona Lourdes e Sílvia, bastante habilidosas na arte de preparar quitutes, encheram a mesa da sala com docinhos e salgadinhos variados, além do bolo, para comemorar com os parentes e amigos mais próximos o aniversário de Sérgio. Brigadeiros, beijinhos de coco, surpresas de uva, trufas e docinhos finos competiam contra coxinhas, pãezinhos de queijo, pastéis de forno, canudinhos e bolinhos de bacalhau pela ocupação do espaço da mesa da sala onde o bolo, centralizado, moderava e delimitava o território dos doces, de um lado, e salgados, do outro. Isso sem contar com refrigerantes, cerveja e água de coco servidos aos presentes.

Fim de festa, os participantes haviam desejado felicitações ao aniversariante, agradecido e se despedido, restando na casa apenas os moradores e o "agregado", que havia oferecido ajuda com os trabalhos de reorganização da casa para depois partir para a sua residência. Como retribuição à gentileza de Roberto, Dona Lourdes pegou um dos potes de seu armário e preencheu com amostras generosas de todos os doces e salgados que haviam sobrado. Mas fez isso com um certo aperto no coração, pois o ciúme que ela sentia de seus objetos só não era maior do que o que sentia pelos filhos.
Assim, Roberto deixou a casa de Sílvia carregando um pote bem servido de quitutes, que foram muito bem apreciados em seus lanches e sobremesas durante a semana que se passou. E, chegado o novo fim de semana, era hora de reencontrar Sílvia e sua família.

Dona Lourdes havia contabilizado o débito do pote emprestado e aguardava ansiosamente o fim de semana para resgatá-lo e fechar seu balancete dos utensílios da cozinha. Assim que ouviu a voz de Roberto na sala de casa, dirigiu-se rapidamente para lá em busca de seu amado pote. Ao notar as mãos vazias de Roberto, foi logo perguntando: "Ei, cadê o meu pote?"

Enquanto Roberto se desculpava por ter esquecido e prometia que no dia seguinte levaria o pote de Dona Lourdes, Sérgio, que percebeu o nítido constrangimento de Roberto frente à cobrança, repreendeu sua mãe dizendo: "Mas mãe, é só um pote daqueles de sorvete!" - chamando a atenção para o fato de ser um objeto de pouco valor financeiro, além de haver uma pilha de potes como esse no armário da cozinha.

E Dona Lourdes respondeu: "Mas é bom pra guardar feijão na geladeira!".

No dia seguinte, Roberto entregou logo o precioso pote de sorvete para Sílvia, que repassou imediatamente para Dona Lourdes, que agradeceu e o recolocou no seu armário. Seu balancete agora estava fechado.

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