quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A dor da mutilação

Abriu a gaveta da cozinha e rapidamente encontrou a faca mais amolada. Sabia que a tarefa de cortar a charque em pequenas tiras exigia aquela faca de cabo branco, usada apenas nesse tipo de ocasião especial. Enquanto preparava-se para iniciar a tarefa, Caio e Júlia, seus sobrinhos de 10 e 17 anos, respectivamente, a acompanhavam na cozinha enquanto os três conversavam, brincavam e sorriam, como de costume. Dona Célia, sua mãe, permanecia na sala assistindo ao Jornal na TV.

Segurou aquele pequeno paralelepípedo de charque com a mão esquerda e, com firmeza, iniciou os movimentos de vai e vem com a faca do cabo branco na mão direita. Morando sozinha, havia habituado-se com o sentimento de precaução constante. Não havendo ninguém para socorrê-la imediatamente numa eventual necessidade, passou a levar mais do que a sério os ditados "prevenir é o melhor remédio" e "a prevenção morreu de velha". Mas, naquele momento, o sentimento de medo que leva à precaução constante deu lugar à tranquilidade. Já que estava na casa de sua mãe e na companhia de seus familiares, o que poderia acontecer de errado?

Estava apenas iniciando o corte das tiras de charque. Aquele paralelepípedo agora estava num formato bem mais irregular e necessitava ainda mais firmeza para que os cortes saíssem como o desejado. E, de repente, a tarefa teve que ser interrompida.

Não foi apenas uma fisgada. A dor física foi instantânea, paralisante e extremamente intensa. "Não foi um mero cortesinho. Foi grave." - se pudesse congelar aquele instante e racionalizar o que havia acabado de acontecer, seriam suas palavras.

Um grito, olhos cerrados e lacrimejando, o corpo curvando e dor intensa foram as sensações imediatas. Não podia acreditar no que havia acabado de acontecer. Aproximou a mão direita do peito, que segurava seu dedo indicador e comprimia os outros dedos da mão esquerda junto ao corpo. Seu coração batia acelerado. Os olhos permaneciam fechados e lacrimejando. Sabia que se lembraria daquele dia para o resto de sua vida. O dia em que havia se mutilado acidentalmente.

Dona Célia já estava na cozinha no mesmo segundo em que escutou o grito da filha. Caio e Júlia tentavam falar e olhavam assombrados para a Tia, encurvada, já ajoelhando-se no chão, segurando o dedo esquerdo com a mão direita, tentando desesperadamente manter sua mão inteira por alguns últimos segundos. Era chegada a hora de abrir os olhos e encarar o ocorrido.

Então levantou as pálpebras vagarosamente. O queixo e as mãos tremiam enquanto a visão ainda turva devido às lágrimas se restabelecia. Finalmente veio a nitidez e a realidade.

Havia sido apenas um pequeno corte. Fundo, mas pequeno. A dor que sentiu foi tão forte, tão intensa, que havia acreditado, por um instante, que a faca do cabo branco havia decepado seu dedo. Mas menos de um centímetro do dedo indicador havia sido atingido por um corte não fundo o suficiente para buscar-se primeiros socorros especializados.

O medo havia tornado o ferimento mais brutal do que realmente havia sido. Mas apenas em um ponto suas ideias estavam corretas: ela se lembraria daquele dia por toda a vida, menos pelo corte e pela sensação que a dor e o medo provocaram, mas muito pela visão que teve, logo em seguida, dos rostinhos assustados de seus sobrinhos com toda a dramatização da situação.

Um comentário:

  1. Kkkkkkkkkkkk
    Meu Deus!!! Imaginei cada detalhe.
    Muito bom 👏👍

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