quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A carona literária

Alice sabia que aquela consulta médica não duraria mais do que 10 minutos, mesmo tendo sido marcada com um mês de antecedência. Mesmo tendo que aguardar por mais de uma hora na sala de espera. Ainda assim, Alice entusiasmou-se quando agendou e compareceu à Clínica Médica no dia marcado. O motivo de seu entusiasmo era o livro recém-comprado que estava devorando, então aqueles minutos ou horas de espera seriam muito bem aproveitados.

Após os procedimentos junto à recepção, Alice sentou-se numa das cadeiras disponíveis, tirou seu livro da bolsa e foi direto à página cuja leitura havia sido interrompida na noite anterior por um pedido de socorro de sua filha, que havia visto algum "bicho" no seu quartinho e, por isso, não conseguia dormir. Depois de vasculhar todo o quarto da menina sem sucesso, o único argumento que a convenceu a dormir foi o de que "a mamãe vai ficar aqui com você e não vai deixar esse bicho te pegar". E assim, 30 minutos depois, quando a menina finalmente dormiu, já estava na hora da mãe dormir também. Assim o livro só foi reaberto no dia seguinte, na sala de espera.

Enquanto tirava o livro da bolsa, Alice olhou por um instante as opções de leitura disponíveis no local. Revistas de fofocas, novelas e famosos estavam espalhadas pela mesinha central da sala de espera. Claro que nenhuma daquelas opções seria mais interessante do que a continuação da leitura do livro naquele dia.

E então Alice começou a dar continuidade à sua leitura. Após alguns minutos e algumas páginas, notou que um rapaz havia sentado na cadeira ao seu lado. Nada demais até então, já que era uma das poucas cadeiras vazias na sala. Mas, pouco depois, sua visão periférica não deixou de captar algo curioso que estava acontecendo: o rapaz parecia estar acompanhando a leitura de seu livro.

Ainda que fosse um desconhecido e o mesmo não tivesse pedido um favor, ou "com licença" para juntar-se à leitura, Alice carrega em seu coração uma grande generosidade e empatia. Imaginou como ela mesma se sentiria caso não estivesse com seu livro atual e tivesse que recorrer às revistas disponíveis e, eventualmente, encontrasse uma possibilidade de carona literária. Concluiu que talvez fizesse o mesmo - talvez mais discretamente ou, dependendo da situação, com coragem suficiente para pedir licença para acompanhar a leitura. O fato é que permitiu, de bom grado, que o leitor desconhecido continuasse acompanhando os trabalhos, sem dar mostras de que havia percebido a pequena "intromissão".

Foi quando chegou ao fim da página. "Será que ele já leu tudo? Se eu virar a página, será que ele vai acompanhar o texto?" - na dúvida, aguardou mais alguns segundos antes de passar para a página seguinte. E assim continuou nesse ritmo, contando alguns segundos antes de virar a página, para garantir que sua "dupla" não ficaria defasada.

Os minutos foram passando junto com as páginas e a leitura "em dupla" continuava, até que Alice ouviu seu nome sendo chamado na recepção. Estava na hora de ser atendida. Antes de levantar-se, porém, virou-se para o rapaz e, delicadamente, desculpou-se e explicou que teria que levar o livro junto. Mostrou a capa, com o título e o autor e recomendou ao rapaz que o comprasse para continuar a leitura. O rapaz não conseguiu esconder o envergonhamento, mas agradeceu bastante e disse que providenciaria a compra daquele livro, pois estava gostando muito da leitura e havia ficado curioso para ler o início da história. E pediu desculpas pela intromissão. Alice apenas sorriu e seguiu para a consulta.

Após o término da consulta, passando pela sala de espera a caminho da saída, observou que o rapaz já não estava mais. Seguiu tranquila para sua casa, satisfeita por ter feito sua boa ação do dia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário