domingo, 22 de março de 2015

Sentimentos sem palavras (parte 2 - final)

Foi por acaso que Paulo conheceu Kaya. Ele havia parado num quiosque para comprar um caldo-de-cana para refrescar-se após 40 minutos de corrida na Orla. Ao receber o seu copo do vendedor, Paulo virou-se abruptamente e esbarrou, acidentalmente, em Kaya, esvaziando todo o seu caldo-de-cana no vestido branco, com pequenas e dispersas estampas de flores vermelhas que ela usava.

Ao perceber o estrago que havia acabado de cometer, Paulo pediu mil desculpas àquela moça de traços orientais e, puxando-a pelo braço delicadamente, levou-a até uma pequena loja de artesanato à procura de uma toalha e, se possível, uma roupa nova e seca. Kaya tentou dizer que não precisava, que havia sido um acidente e que a casa dela ficava próxima dali, mas ela só sabia dizer "não, obrigado" em Português e, mais importante do que isso, ela percebeu que aquele gesto do rapaz de levá-la à loja de artesanato parecia significar muito para ele. Daí ela cedeu e eles foram à loja, onde Paulo comprou uma toalha e uma nova roupa para Kaya.

"Obrigado!" - dizia Kaya, com um sorriso sincero e um olhar doce como Paulo nunca havia visto. Ao saírem da loja de artesanato, caminharam juntos por alguns minutos sem trocar nenhuma palavra, nem olhares. Mas, por alguma razão, Paulo sentiu-se tão bem na companhia daquela moça, que poucos minutos se passaram muito rápido até que a moça parou em frente a um edifício. Fazendo sinais com as mãos ela demonstrou que iria entrar, que ali era a residência dela. Disse mais uma vez "obrigado!" e, antes que ela atravessasse a portaria, Paulo tentou apresentar-se: "Meu nome é Paulo. Paulo!" - disse apontando sua mão direita para si mesmo. Kaya entendeu na mesma hora e apresentou-se também: "Kaya", disse apontando sua mão esquerda para si e baixando um pouco a face. Despediram-se e Paulo voltou para a Orla com vontade de retornar àquele prédio.

Dois dias depois, Paulo voltou ao prédio de Kaya e pediu ao porteiro que a chamasse. Alguns minutos depois, Kaya estava na frente do prédio com o sorriso que Paulo esperava reencontrar. Os dois seguiram juntos para a Orla, onde caminharam juntos por alguns minutos, sem trocar nenhuma palavra. Mas o silêncio entre eles estava longe de significar falta de diálogo: os gestos e expressões supriam todas as necessidades de comunicação entre eles.

E assim passaram-se dias, semanas e meses. Gestos cada vez mais bem compreendidos formaram um vocabulário próprio entre Paulo e Kaya. Fotografias, objetos e desenhos rabiscados complementavam o que os gestos não conseguiam representar. E assim, com o tempo, formaram-se laços cada vez mais estreitos de carinho, amizade, cumplicidade, respeito e amor. Mesmo Paulo não sabendo falar uma só palavra em Japonês. Mesmo Kaya sabendo falar somente um palavra em Português: "Obrigado, obrigado! - repetia Kaya a cada gentileza de Paulo.

Depois de anos de convivência e de casamento, Paulo compreendeu que sua dificuldade de se expressar por meio de palavras não significava falta de sensibilidade ou de reciprocidade com relação aos sentimentos das outras pessoas - em especial, de Kaya. Paulo também percebeu que a ausência de palavras em sua família de origem também não significava falta de comunicação, pois essa acontecia diariamente através de pequenos gestos que, apesar de rotineiros, significavam amor, respeito e cumplicidade entre seus pais. E assim Paulo e Kaya continuaram juntos e felizes por muitos anos.

(Fim)

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