quinta-feira, 26 de março de 2015

Em busca de respostas e perguntas

Peguei a tampa do frasco, coloquei sobre a abertura do mesmo, comecei a rosquear e parei no início, deixando a tampa posicionada sobre o frasco.

- Não, minha filha! Não pode deixar a tampa assim! Tem que tampar "bem tampado" - disse a minha mãe enquanto completava o rosqueamento que eu havia apenas iniciado - senão ele "vai embora"!

Fiquei intrigada com a afirmação de que o líquido iria "embora". Eu devia ter uns sete ou oito anos de idade, mais ou menos, e estava no meio da atividade de manicure.

- Como assim ele "vai embora"? Ele tem pernas? - fiz essa pergunta porque sempre a ouvi quando eu procurava por alguma coisa - normalmente algum brinquedo - e, como não encontrava, perguntava à minha mãe se ela o havia visto. Ela costumava responder que "ele está onde você colocou! Por acaso ele tem pernas?"

Quando criança, eu costumava fazer muitas perguntas por um motivo: eu queria entender o porquê das coisas. Eu queria entender aquela história segundo a qual um líquido "iria embora" se a garrafinha não ficasse bem tampada. Eu queria saber qual era a finalidade de se pintar com tinta branca as bases de árvores e de coqueiros que eu via espalhados pela cidade. Eu via o mapa rodoviário do Brasil emoldurado na parede do gabinete de casa e queria entender por que as estradas tinham aquele traçado tão irregular, se bastaria usar uma linha reta para ligar uma cidade a outra.

Bom, eu fazia muitas perguntas e é claro que meus pais não tinham as respostas para todas. E quanto mais o tempo passava, mais e mais perguntas eu me fazia e fazia para eles. "Você vai entender isso quando estiver na sexta série do Colégio", disse-me a minha mãe em algumas ocasiões, variando a série ou o nível de escolaridade. Isso me deixava ansiosa à espera das respostas, mas não angustiada, pois ao mesmo tempo eu sabia que as respostas viriam ao seu tempo. Então aprendi a esperar.

Com o passar das séries do Colégio, novas perguntas foram formuladas através de pequenos experimentos científicos: observei que um pouco de água num recipiente deixado ao ar livre evaporava. Observei que um pedaço de esponja de aço enferrujava se fosse guardado molhado. Meu pai explicou que um copo com água gelada ficava com a superfície úmida por causa das partículas de água que estavam "flutuando" na atmosfera. Assim pude fazer vários pequenos experimentos e eu amava fazê-los.

Somente anos depois eu vim entender que o líquido que "iria embora" do frasco era a acetona que estávamos usando para fazer os acabamentos na pintura com esmalte para unhas. Sendo um material de alta volatilidade, o frasco que continha a acetona deveria ser mantido muito bem fechado, para que o líquido não "escapasse" pelas brechas do rosqueamento por efeito da evaporação.

Com o passar do tempo, novas perguntas foram formuladas e eu passei a buscar as respostas nos livros, na internet ou mesmo perguntando às pessoas. E, quanto mais respostas eu encontro, mais perguntas surgem. Para muitas perguntas eu não encontrei respostas e sei que ainda há muitas perguntas a serem formuladas no futuro. Como dizia uma propaganda antiga da TV Futura: "Não são as respostas que movem o mundo. São as perguntas". Que venham mais perguntas!

domingo, 22 de março de 2015

Sentimentos sem palavras (parte 2 - final)

Foi por acaso que Paulo conheceu Kaya. Ele havia parado num quiosque para comprar um caldo-de-cana para refrescar-se após 40 minutos de corrida na Orla. Ao receber o seu copo do vendedor, Paulo virou-se abruptamente e esbarrou, acidentalmente, em Kaya, esvaziando todo o seu caldo-de-cana no vestido branco, com pequenas e dispersas estampas de flores vermelhas que ela usava.

Ao perceber o estrago que havia acabado de cometer, Paulo pediu mil desculpas àquela moça de traços orientais e, puxando-a pelo braço delicadamente, levou-a até uma pequena loja de artesanato à procura de uma toalha e, se possível, uma roupa nova e seca. Kaya tentou dizer que não precisava, que havia sido um acidente e que a casa dela ficava próxima dali, mas ela só sabia dizer "não, obrigado" em Português e, mais importante do que isso, ela percebeu que aquele gesto do rapaz de levá-la à loja de artesanato parecia significar muito para ele. Daí ela cedeu e eles foram à loja, onde Paulo comprou uma toalha e uma nova roupa para Kaya.

"Obrigado!" - dizia Kaya, com um sorriso sincero e um olhar doce como Paulo nunca havia visto. Ao saírem da loja de artesanato, caminharam juntos por alguns minutos sem trocar nenhuma palavra, nem olhares. Mas, por alguma razão, Paulo sentiu-se tão bem na companhia daquela moça, que poucos minutos se passaram muito rápido até que a moça parou em frente a um edifício. Fazendo sinais com as mãos ela demonstrou que iria entrar, que ali era a residência dela. Disse mais uma vez "obrigado!" e, antes que ela atravessasse a portaria, Paulo tentou apresentar-se: "Meu nome é Paulo. Paulo!" - disse apontando sua mão direita para si mesmo. Kaya entendeu na mesma hora e apresentou-se também: "Kaya", disse apontando sua mão esquerda para si e baixando um pouco a face. Despediram-se e Paulo voltou para a Orla com vontade de retornar àquele prédio.

Dois dias depois, Paulo voltou ao prédio de Kaya e pediu ao porteiro que a chamasse. Alguns minutos depois, Kaya estava na frente do prédio com o sorriso que Paulo esperava reencontrar. Os dois seguiram juntos para a Orla, onde caminharam juntos por alguns minutos, sem trocar nenhuma palavra. Mas o silêncio entre eles estava longe de significar falta de diálogo: os gestos e expressões supriam todas as necessidades de comunicação entre eles.

E assim passaram-se dias, semanas e meses. Gestos cada vez mais bem compreendidos formaram um vocabulário próprio entre Paulo e Kaya. Fotografias, objetos e desenhos rabiscados complementavam o que os gestos não conseguiam representar. E assim, com o tempo, formaram-se laços cada vez mais estreitos de carinho, amizade, cumplicidade, respeito e amor. Mesmo Paulo não sabendo falar uma só palavra em Japonês. Mesmo Kaya sabendo falar somente um palavra em Português: "Obrigado, obrigado! - repetia Kaya a cada gentileza de Paulo.

Depois de anos de convivência e de casamento, Paulo compreendeu que sua dificuldade de se expressar por meio de palavras não significava falta de sensibilidade ou de reciprocidade com relação aos sentimentos das outras pessoas - em especial, de Kaya. Paulo também percebeu que a ausência de palavras em sua família de origem também não significava falta de comunicação, pois essa acontecia diariamente através de pequenos gestos que, apesar de rotineiros, significavam amor, respeito e cumplicidade entre seus pais. E assim Paulo e Kaya continuaram juntos e felizes por muitos anos.

(Fim)