quinta-feira, 10 de julho de 2014

Pai, você já traiu a mamãe?

"Pai, você já traiu a mamãe?" - perguntou Caio, aos 17 anos.
"Meu filho, eu vou responder à sua pergunta. Mas primeiro você terá que responder a uma  outra pergunta que eu quero lhe fazer." - replicou Marcelo, pai de Caio e de outros dois filhos adolescentes, desviando sua atenção do jornal que estava lendo no momento.
"Ah, já vi que traiu! Se não quer responder, é porque já traiu!" - Caio supôs que Marcelo teria ficado desconcertado com a pergunta e estaria tentando se esquivar.
"Não, meu filho. Eu ainda não respondi à sua pergunta." - disse Marcelo, olhando para Caio nos olhos e demonstrando serenidade no tom de voz. "Essa pergunta que você está fazendo é muito séria e, por isso, estou querendo que você reflita seriamente sobre isso." - Marcelo tenta se fazer entender.
"Como assim? É só responder sim ou não!" - Caio ironiza.
"Exatamente, meu filho. Essa pergunta tem duas possíveis respostas: sim ou não. Você tem 17 anos e sempre conviveu comigo, sua mãe e seus irmãos no nosso ambiente familiar, que sempre foi muito tranquilo, não é verdade?
Vamos analisar a primeira possibilidade: o não. Essa resposta deixaria você bastante tranquilo, pois isso não mudaria em nada o que você já está acostumado a ver. Arrisco-me a dizer que é essa a resposta que você espera que eu lhe dê.
Agora vamos analisar a segunda hipótese: o sim. Como você reagiria se eu respondesse que sim? Você continuaria a enxergar nossa família da mesma forma? E o que você levaria para o seu próprio futuro com essa possível informação?"
"Ah, pai, quer dizer que você já traiu, né?"
"Meu filho, eu ainda não respondi. E, como eu disse, eu vou responder, mas primeiro você terá que refletir se você está preparado para qualquer das possíveis respostas que eu lhe der. Estando preparado, responderei à sua pergunta." - concluiu Marcelo, voltando à leitura do jornal.
Caio ficou abismado com as palavras do pai, mas fez a reflexão que o pai sugeriu. Passou um dia, dois, três... um mês, dois... seis meses... um ano... dois anos... cinco...
Dez anos haviam se passado quando Caio voltou a lembrar daquela conversa que teve com o pai. Aos 27 anos, já não era mais um adolescente e estava prestes a se casar. Caio olhou para o pai, sentado naquela mesma poltrona e lendo o jornal do dia - dessa vez num tablet, em versão eletrônica. Caio lembrou-se da conversa, refletiu novamente por alguns segundos e tomou uma decisão: não voltaria a fazer aquela pergunta ao pai, embora estivesse se sentindo preparado para qualquer resposta.

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