terça-feira, 22 de julho de 2014

Comentários de crianças e saia justa dos adultos

Em meados dos anos 80, uma família - um casal e seus dois filhos pequenos, uma menina e um menino - todos os meses saía de carro de Maceió para passar um fim de semana em Arapiraca. Costumavam sair de Maceió na sexta-feira, por volta das 15 horas, chegando em Arapiraca às 16 horas e 30 minutos, e retornavam no domingo pela manhã.
Num daqueles fins de semana, o marido havia oferecido carona a uma conhecida para retornar a Maceió. A esposa não se mostrou favorável à ideia:
- Puxa, mas ela também vai com a gente? - reclamou a esposa.
- Vai, eu já ofereci e ela confirmou. Mas qual o problema? Só iríamos nós quatro mesmo, então temos uma vaga sobrando no carro! - explicou o marido.
- É que assim os nossos filhos irão viajar com menos conforto. Havendo um espaço livre eles poderiam deitar, por exemplo. Mas, com o assento ocupado, eles terão que viajar sentados durante todo o trajeto!
O marido continuou insistindo e explicando que isso não seria um problema para as crianças, já que era uma viagem curta e, além disso, ele já havia confirmado para a moça que ela poderia ir com eles. Assim, chegou a hora da viagem e todos embarcaram no carro, rumo a Maceió.
Foi aí que, durante o percurso, aconteceu um imprevisto: o marido, que dirigia, sentiu que a direção ficou muito pesada de repente e eles tiveram que parar para ver o que havia ocorrido com o carro. Então verificaram que o pneu havia furado e estava totalmente vazio, necessitando de uma troca imediatamente.
Nesse momento, para surpresa de todos, a moça que os acompanhava de carona não só foi altamente prestativa como praticamente executou toda a troca dos pneus. Em menos de 15 minutos, o problema já estava resolvido e o carro pronto para prosseguir a viagem.
A menina, que era a mais nova, havia observado atentamente toda a cena e ficou impressionada com o ocorrido. Daí, antes de retornar para o carro, falou para a mãe, em alto e bom som:
- Tá vendo, mãe? E a senhora nem queria que ela tivesse vindo!

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Quem paga o presente?

Naquele dia das mães, Dona Fátima se sentia especialmente feliz, ainda que não soubesse o motivo. Passou a manhã na cozinha preparando os pratos para o almoço com seus quatro filhos, que iriam visitá-la e presenteá-la como de costume, acompanhados dos genros, noras e netos. Os ingredientes usados eram bastante simples, assim como sua casa e seus móveis.
Em toda a sua vida, Dona Fátima havia enfrentado inúmeras dificuldades, tanto para conseguir trabalho, tendo em vista seu nível de escolaridade restrito ao nível fundamental, como para gerenciar a educação de seus quatro filhos sem o pai, que a havia abandonado e mudado de Estado, com quem o único contato que mantinha era através do depósito bancário da pensão alimentícia determinada pela Justiça.
Naquele ano os filhos de Dona Fátima, duas moças e dois rapazes, haviam decidido presenteá-la de uma maneira um pouco mais requintada e, assim, compraram uma nova TV para ela. Ao fazer a entrega da caixa, que estava toda enfeitada com laços e papel presente, todos os filhos abraçaram Dona Fátima, que se emocionou com tamanha surpresa. No final daquele dia das mães, os filhos deixaram a casa de Dona Fátima com a TV já devidamente instalada e em funcionamento.
Depois os dias foram passando e Dona Fátima e seus filhos haviam retornado ao dia-a-dia de suas famílias e seus trabalhos. Até que chegou o fim do mês e, com ele, os envelopes contendo as faturas de água, energia, telefone, aluguel e cartão de crédito. Neste último, Dona Fátima estranhou o valor que apareceu e foi conferir o descritivo para identificar o que havia acontecido para dobrar o valor que ela costumava pagar.
Ao ver que se tratava da compra de uma TV, Dona Fátima ligou para sua filha mais velha para questionar o que havia acontecido. Ela explicou que, como nenhum dos filhos possuía um cartão de crédito aceito pela loja, eles usaram o cartão dela para fazer a compra, mas que as 10 parcelas seriam pagas por eles. Então Dona Fátima ficou tranquila e pediu para que o valor da prestação fosse entregue a ela até a véspera da data de pagamento da fatura do cartão.
Porém, chegou o dia combinado e Dona Fátima ainda não tinha visto a cor do dinheiro da parcela. Tentou falar mais uma vez com a filha mais velha, mas ela não atendeu nem retornou as chamadas. Tentou falar com os outros filhos e... nada! Ninguém voltou a falar com Dona Fátima, que se viu obrigada a arcar com aquela despesa extra para evitar as complicações do não pagamento da fatura.
O resultado é que os filhos, que haviam se comprometido a pagar as 10 parcelas da nova TV, não conseguiram organizar suas finanças e não pagaram aquela parcela. "E, se não pagaram a primeira parcela, o que seria das demais?" - pensou Dona Fátima, que tentou cancelar a compra e devolver a TV, mas não foi possível porque o prazo estava expirado. E assim Dona Fátima teve que passar os 10 meses seguintes economizando mais do que ela já estava habituada para poder pagar pelo presente que recebeu.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Pai, você já traiu a mamãe?

"Pai, você já traiu a mamãe?" - perguntou Caio, aos 17 anos.
"Meu filho, eu vou responder à sua pergunta. Mas primeiro você terá que responder a uma  outra pergunta que eu quero lhe fazer." - replicou Marcelo, pai de Caio e de outros dois filhos adolescentes, desviando sua atenção do jornal que estava lendo no momento.
"Ah, já vi que traiu! Se não quer responder, é porque já traiu!" - Caio supôs que Marcelo teria ficado desconcertado com a pergunta e estaria tentando se esquivar.
"Não, meu filho. Eu ainda não respondi à sua pergunta." - disse Marcelo, olhando para Caio nos olhos e demonstrando serenidade no tom de voz. "Essa pergunta que você está fazendo é muito séria e, por isso, estou querendo que você reflita seriamente sobre isso." - Marcelo tenta se fazer entender.
"Como assim? É só responder sim ou não!" - Caio ironiza.
"Exatamente, meu filho. Essa pergunta tem duas possíveis respostas: sim ou não. Você tem 17 anos e sempre conviveu comigo, sua mãe e seus irmãos no nosso ambiente familiar, que sempre foi muito tranquilo, não é verdade?
Vamos analisar a primeira possibilidade: o não. Essa resposta deixaria você bastante tranquilo, pois isso não mudaria em nada o que você já está acostumado a ver. Arrisco-me a dizer que é essa a resposta que você espera que eu lhe dê.
Agora vamos analisar a segunda hipótese: o sim. Como você reagiria se eu respondesse que sim? Você continuaria a enxergar nossa família da mesma forma? E o que você levaria para o seu próprio futuro com essa possível informação?"
"Ah, pai, quer dizer que você já traiu, né?"
"Meu filho, eu ainda não respondi. E, como eu disse, eu vou responder, mas primeiro você terá que refletir se você está preparado para qualquer das possíveis respostas que eu lhe der. Estando preparado, responderei à sua pergunta." - concluiu Marcelo, voltando à leitura do jornal.
Caio ficou abismado com as palavras do pai, mas fez a reflexão que o pai sugeriu. Passou um dia, dois, três... um mês, dois... seis meses... um ano... dois anos... cinco...
Dez anos haviam se passado quando Caio voltou a lembrar daquela conversa que teve com o pai. Aos 27 anos, já não era mais um adolescente e estava prestes a se casar. Caio olhou para o pai, sentado naquela mesma poltrona e lendo o jornal do dia - dessa vez num tablet, em versão eletrônica. Caio lembrou-se da conversa, refletiu novamente por alguns segundos e tomou uma decisão: não voltaria a fazer aquela pergunta ao pai, embora estivesse se sentindo preparado para qualquer resposta.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Confusão de bagagens

Quando a porta do avião foi aberta, os passageiros já estavam quase todos em pé, no corredor, segurando seus pertences, prontos para desembarcar. Pouco a pouco os passageiros passaram pela porta dianteira, atravessaram o finger, chegaram ao corredor de acesso à escada rolante, por esta desceram e finalmente chegaram à área de desembarque. Alguns passageiros foram direto para a saída, pois não haviam despachado suas bagagens. Os demais pegaram carrinhos e se posicionaram ao longo da esteira para aguardá-las.

A esteira começou a se mover e, depois de alguns segundos, foi iniciado o desfile de malas. Aparecem então malas de todos os tipos: grandes, pequenas, muito grandes, algumas em cores chamativas como vermelho e laranja, mas a maioria preta. Olhos atentos para identificar a própria bagagem e, enfim, poder passar pelo portão de desembarque.

Passados alguns minutos, Luís ainda estava em frente à esteira junto com os poucos passageiros que ainda aguardavam suas bagagens. O último carregamento de bagagens foi então liberado na esteira e os passageiros puderam finalmente deixar o aeroporto. Isto é: todos, menos Luís.

Quando Luís se deu conta, ele estava sozinho em frente à esteira, por onde desfilava apenas uma bagagem, que ele sabia não era a dele."Ah, não acredito!" - pensou Luís enquanto procurava o serviço de atendimento do aeroporto para relatar o ocorrido e tentar reaver sua bagagem o mais rápido possível. Mas ele sabia que iria demorar.

Mais de uma hora havia se passado desde que seu voo aterrissou naquele aeroporto, quando Luís finalmente saiu do aeroporto e entrou no táxi para ir para o hotel. Mas, infelizmente, não levava sua bagagem ainda - havia recebido um kit com acessórios básicos de higiene para usar enquanto a empresa aérea providenciava o contato com a senhora que havia confundido as bagagens e havia levado a de Luís por engano.

No dia seguinte, pela manhã, Luís finalmente recebeu sua bagagem, que foi entregue pela empresa aérea no hotel onde estava hospedado. Luís olhou, respirou fundo, e se sentiu aliviado por receber seus pertences de volta. Sua mala preta era um pouco parecida com a da senhora que a havia levado, mesmo sendo quase cinco quilos mais pesada e estando lacrada com um cadeado próprio para bagagens.

Após o tempo de estadia, Luís retornou à sua cidade de origem e, desembarcando no aeroporto, ainda mais atento à esteira, recolheu rapidamente sua bagagem, que foi a primeira a aparecer no desfile. Depois daquele ocorrido, para evitar outra confusão de bagagens, Luís providenciou uma nova mala - dessa vez, de cor vermelha, onde ele marcou suas iniciais em letras garrafais gigantes com pincel atômico preto. Nunca mais sua mala foi confundida.