sexta-feira, 20 de junho de 2014

As aventuras de uma gatinha destemida

Lia já estava adaptada àquela nova vizinhança. No início, achou tudo aquilo muito estranho: parecia ser uma outra casa, havia novos cheiros, novos sons, tudo muito ameaçador. Passou os primeiros dias encolhida embaixo de uma cama, de onde saía apenas para comer a ração, tomar um pouco de água e fazer suas necessidades.

Seus donos haviam acabado de se separar. No meio da confusão, ficou decidido que a ex-mulher ficaria com aquela gatinha fofa, persa, de pelos longos, mesclados, de tonalidade variando de caramelo a marrom. Seus olhos eram da mesma cor dos pelos. Com a mudança, o único lugar onde Lia poderia ficar era a casa dos pais da moça, que ficava numa rua tranquila, longe da agitação do centro da cidade.

Com o passar dos dias, Lia foi explorando e descobrindo os novos ambientes daquele lugar misterioso. Primeiro, descobriu toda a área interna da casa. Depois, foi se aventurando pelo quintal e pelo jardim da área frontal da casa. Daí para a rua foi só um pulo, literalmente. E a rua parecia ser um lugar muito interessante para ser explorado.

Atrás de cada muro, novos ambientes, novos jardins, com seus diferentes aromas, cores, plantas... e moradores... Bem, nem todos os moradores daquelas outras casas eram humanos... Alguns também tinham quatro patas, uma boca cheia de dentes... mas as semelhanças acabavam por aí: um daqueles moradores de quatro patas era bem maior do que a Lia e não aparentava estar receptivo àquela nova visita.

Por alguma razão, Lia gostava muito de pular aquele muro - justo aquele onde o morador bravo de quatro patas já a havia expulsado outras vezes. Talvez fosse alguma planta diferente no jardim, ou algum móvel fofinho na varanda da casa, ou ainda, quem sabe, insetos ou roedores abusados que chamavam a atenção da gatinha. Mas há quem diga que o que movia Lia era a descarga de adrenalina, a emoção, o perigo de encontrar o cão, que a esperava e corria atrás dela, expulsando-a de seu território devidamente demarcado.

Naquele dia, Lia resolveu ser mais ousada. Usando a habilidade "ninja" que só os gatos têm, ela entrou novamente naquele território canino e foi até um ponto onde ela nunca havia ido antes. Mas aquela seria a primeira e última vez que a gatinha fazia suas investidas naquela área.

O cão avistou a gatinha, mostrou os dentes, latiu e mandou que ela saísse de sua jurisdição. A gatinha não estava disposta a obedecer: mostrou os dentes também e rosnou, enquanto encurvava o corpo e levantava seus pelos numa tentativa pouco eficaz de parecer maior e amedrontadora. O cão não quis saber de mais conversa e partiu para cima da gatinha, que, teimosa e destemida, permaneceu em seu lugar, como se dissesse: "Não tenho medo de você! Quero ver quem vai me tirar daqui!".

Depois disso, só restou aos donos da casa - dessa vez os humanos - darem a triste notícia aos donos da nova gatinha. Dizem que "a curiosidade matou o gato", mas, no caso dessa gatinha, "a falta de medo matou a gata"!

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