terça-feira, 17 de junho de 2014

Amigos de infância com destinos diferentes

Era o segundo dia no novo emprego de Hugo. No dia anterior, sua supervisora havia passado todas as instruções sobre as áreas do prédio que seriam responsabilidade dele e como ele deveria fazer a limpeza. Hugo iniciou os trabalhos seguindo a mesma sequência das orientações que recebera a fim de lembrar-se daquelas instruções o máximo possível. Afinal, depois de quase quatro meses desempregado, não queria fazer feio nem correr o risco de perder essa oportunidade recém encontrada.

Enquanto limpava, pensou: "Ainda bem que essa parte do prédio não é tão cheia de gente, como lá no térreo. Aqui, parece que todo mundo está dentro dessas salas com nome de Juiz na porta". Continuou fazendo seu serviço, mas, dessa vez, quis ler os nomes que apareciam nas portas das salas. "Juiz Federal Fulado de Tal", "Juiz Federal Sicrano de Tal", "Juiz Federal Beltrano de Tal"... "Não quero nem ver esses juízes" - pensou - "Devem ser uns mauricinhos muito chatos". E continuou fazendo a limpeza.

Ao chegar em frente a uma das salas, leu o nome que estava na porta apressadamente e continuou seu trabalho. Ouviu passos de alguém se aproximando e afastou-se da porta para permitir a passagem. Escutou um "Boa tarde" e levantou a cabeça para responder ao cumprimento. Nesse momento, fez contato visual com aquele que o cumprimentou e teve a impressão de que conhecia aqueles olhos de tempos anteriores.

"Como vai, Hugo? Há quanto tempo?" - Hugo quase não acreditou que aquele rapaz de óculos, bem vestido, segurando uma pasta bonita, estava estendendo a mão para ele, com um grande sorriso nos rosto. Somente no momento do aperto de mão Hugo recordou exatamente quem era aquela figura familiar: era o Lucas, um amigo de infância de quem ele perdera o contato havia muitos anos.

Conversaram um pouco e Hugo ficou sabendo que Lucas, aquele garoto franzino que estava sempre com um livro na mão havia se tornado pai de família, morava num bairro bacana e trabalhava naquele mesmo prédio. Lucas, muito educadamente, desculpou-se e pediu licença para seguir para sua sala, pois estava um pouco atrasado. "Fiquei feliz por te ver, depois conversamos mais, certo?" disse Lucas, despedindo-se e já entrando na sala para onde se dirigia.

Só então Hugo prestou atenção no nome que havia lido na porta da sala: "Juiz Federal Lucas Costa dos Santos". "Quer dizer que Lucas agora é juiz?", pensou Hugo, que ficou paralisado por alguns segundos, até que voltou a dar prosseguimento à limpeza do hall. Mas, enquanto limpava, um pensamento ecoava em sua cabeça: "Lucas virou juiz?", "Então Lucas virou juiz?"...

Terminado o expediente, enquanto seguia para casa, já no ônibus, Hugo continuou refletindo sobre o que havia visto que tinha acontecido com seu amigo de infância. Ao chegar em casa, foi até o quarto onde estava seu filho, sentou-se no chão para ficar da mesma altura que ele, e disse: "meu filho, quando você crescer, eu quero ver você como o meu amigo Lucas". E assim, daí em diante, Hugo fez o possível e o impossível para conseguir livros e incentivar seu filho a seguir com os estudos. Sentiu orgulho só de imaginar seu filho adulto usando óculos, bem vestido e com uma bonita pasta nas mãos.

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