terça-feira, 22 de julho de 2014

Comentários de crianças e saia justa dos adultos

Em meados dos anos 80, uma família - um casal e seus dois filhos pequenos, uma menina e um menino - todos os meses saía de carro de Maceió para passar um fim de semana em Arapiraca. Costumavam sair de Maceió na sexta-feira, por volta das 15 horas, chegando em Arapiraca às 16 horas e 30 minutos, e retornavam no domingo pela manhã.
Num daqueles fins de semana, o marido havia oferecido carona a uma conhecida para retornar a Maceió. A esposa não se mostrou favorável à ideia:
- Puxa, mas ela também vai com a gente? - reclamou a esposa.
- Vai, eu já ofereci e ela confirmou. Mas qual o problema? Só iríamos nós quatro mesmo, então temos uma vaga sobrando no carro! - explicou o marido.
- É que assim os nossos filhos irão viajar com menos conforto. Havendo um espaço livre eles poderiam deitar, por exemplo. Mas, com o assento ocupado, eles terão que viajar sentados durante todo o trajeto!
O marido continuou insistindo e explicando que isso não seria um problema para as crianças, já que era uma viagem curta e, além disso, ele já havia confirmado para a moça que ela poderia ir com eles. Assim, chegou a hora da viagem e todos embarcaram no carro, rumo a Maceió.
Foi aí que, durante o percurso, aconteceu um imprevisto: o marido, que dirigia, sentiu que a direção ficou muito pesada de repente e eles tiveram que parar para ver o que havia ocorrido com o carro. Então verificaram que o pneu havia furado e estava totalmente vazio, necessitando de uma troca imediatamente.
Nesse momento, para surpresa de todos, a moça que os acompanhava de carona não só foi altamente prestativa como praticamente executou toda a troca dos pneus. Em menos de 15 minutos, o problema já estava resolvido e o carro pronto para prosseguir a viagem.
A menina, que era a mais nova, havia observado atentamente toda a cena e ficou impressionada com o ocorrido. Daí, antes de retornar para o carro, falou para a mãe, em alto e bom som:
- Tá vendo, mãe? E a senhora nem queria que ela tivesse vindo!

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Quem paga o presente?

Naquele dia das mães, Dona Fátima se sentia especialmente feliz, ainda que não soubesse o motivo. Passou a manhã na cozinha preparando os pratos para o almoço com seus quatro filhos, que iriam visitá-la e presenteá-la como de costume, acompanhados dos genros, noras e netos. Os ingredientes usados eram bastante simples, assim como sua casa e seus móveis.
Em toda a sua vida, Dona Fátima havia enfrentado inúmeras dificuldades, tanto para conseguir trabalho, tendo em vista seu nível de escolaridade restrito ao nível fundamental, como para gerenciar a educação de seus quatro filhos sem o pai, que a havia abandonado e mudado de Estado, com quem o único contato que mantinha era através do depósito bancário da pensão alimentícia determinada pela Justiça.
Naquele ano os filhos de Dona Fátima, duas moças e dois rapazes, haviam decidido presenteá-la de uma maneira um pouco mais requintada e, assim, compraram uma nova TV para ela. Ao fazer a entrega da caixa, que estava toda enfeitada com laços e papel presente, todos os filhos abraçaram Dona Fátima, que se emocionou com tamanha surpresa. No final daquele dia das mães, os filhos deixaram a casa de Dona Fátima com a TV já devidamente instalada e em funcionamento.
Depois os dias foram passando e Dona Fátima e seus filhos haviam retornado ao dia-a-dia de suas famílias e seus trabalhos. Até que chegou o fim do mês e, com ele, os envelopes contendo as faturas de água, energia, telefone, aluguel e cartão de crédito. Neste último, Dona Fátima estranhou o valor que apareceu e foi conferir o descritivo para identificar o que havia acontecido para dobrar o valor que ela costumava pagar.
Ao ver que se tratava da compra de uma TV, Dona Fátima ligou para sua filha mais velha para questionar o que havia acontecido. Ela explicou que, como nenhum dos filhos possuía um cartão de crédito aceito pela loja, eles usaram o cartão dela para fazer a compra, mas que as 10 parcelas seriam pagas por eles. Então Dona Fátima ficou tranquila e pediu para que o valor da prestação fosse entregue a ela até a véspera da data de pagamento da fatura do cartão.
Porém, chegou o dia combinado e Dona Fátima ainda não tinha visto a cor do dinheiro da parcela. Tentou falar mais uma vez com a filha mais velha, mas ela não atendeu nem retornou as chamadas. Tentou falar com os outros filhos e... nada! Ninguém voltou a falar com Dona Fátima, que se viu obrigada a arcar com aquela despesa extra para evitar as complicações do não pagamento da fatura.
O resultado é que os filhos, que haviam se comprometido a pagar as 10 parcelas da nova TV, não conseguiram organizar suas finanças e não pagaram aquela parcela. "E, se não pagaram a primeira parcela, o que seria das demais?" - pensou Dona Fátima, que tentou cancelar a compra e devolver a TV, mas não foi possível porque o prazo estava expirado. E assim Dona Fátima teve que passar os 10 meses seguintes economizando mais do que ela já estava habituada para poder pagar pelo presente que recebeu.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Pai, você já traiu a mamãe?

"Pai, você já traiu a mamãe?" - perguntou Caio, aos 17 anos.
"Meu filho, eu vou responder à sua pergunta. Mas primeiro você terá que responder a uma  outra pergunta que eu quero lhe fazer." - replicou Marcelo, pai de Caio e de outros dois filhos adolescentes, desviando sua atenção do jornal que estava lendo no momento.
"Ah, já vi que traiu! Se não quer responder, é porque já traiu!" - Caio supôs que Marcelo teria ficado desconcertado com a pergunta e estaria tentando se esquivar.
"Não, meu filho. Eu ainda não respondi à sua pergunta." - disse Marcelo, olhando para Caio nos olhos e demonstrando serenidade no tom de voz. "Essa pergunta que você está fazendo é muito séria e, por isso, estou querendo que você reflita seriamente sobre isso." - Marcelo tenta se fazer entender.
"Como assim? É só responder sim ou não!" - Caio ironiza.
"Exatamente, meu filho. Essa pergunta tem duas possíveis respostas: sim ou não. Você tem 17 anos e sempre conviveu comigo, sua mãe e seus irmãos no nosso ambiente familiar, que sempre foi muito tranquilo, não é verdade?
Vamos analisar a primeira possibilidade: o não. Essa resposta deixaria você bastante tranquilo, pois isso não mudaria em nada o que você já está acostumado a ver. Arrisco-me a dizer que é essa a resposta que você espera que eu lhe dê.
Agora vamos analisar a segunda hipótese: o sim. Como você reagiria se eu respondesse que sim? Você continuaria a enxergar nossa família da mesma forma? E o que você levaria para o seu próprio futuro com essa possível informação?"
"Ah, pai, quer dizer que você já traiu, né?"
"Meu filho, eu ainda não respondi. E, como eu disse, eu vou responder, mas primeiro você terá que refletir se você está preparado para qualquer das possíveis respostas que eu lhe der. Estando preparado, responderei à sua pergunta." - concluiu Marcelo, voltando à leitura do jornal.
Caio ficou abismado com as palavras do pai, mas fez a reflexão que o pai sugeriu. Passou um dia, dois, três... um mês, dois... seis meses... um ano... dois anos... cinco...
Dez anos haviam se passado quando Caio voltou a lembrar daquela conversa que teve com o pai. Aos 27 anos, já não era mais um adolescente e estava prestes a se casar. Caio olhou para o pai, sentado naquela mesma poltrona e lendo o jornal do dia - dessa vez num tablet, em versão eletrônica. Caio lembrou-se da conversa, refletiu novamente por alguns segundos e tomou uma decisão: não voltaria a fazer aquela pergunta ao pai, embora estivesse se sentindo preparado para qualquer resposta.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Confusão de bagagens

Quando a porta do avião foi aberta, os passageiros já estavam quase todos em pé, no corredor, segurando seus pertences, prontos para desembarcar. Pouco a pouco os passageiros passaram pela porta dianteira, atravessaram o finger, chegaram ao corredor de acesso à escada rolante, por esta desceram e finalmente chegaram à área de desembarque. Alguns passageiros foram direto para a saída, pois não haviam despachado suas bagagens. Os demais pegaram carrinhos e se posicionaram ao longo da esteira para aguardá-las.

A esteira começou a se mover e, depois de alguns segundos, foi iniciado o desfile de malas. Aparecem então malas de todos os tipos: grandes, pequenas, muito grandes, algumas em cores chamativas como vermelho e laranja, mas a maioria preta. Olhos atentos para identificar a própria bagagem e, enfim, poder passar pelo portão de desembarque.

Passados alguns minutos, Luís ainda estava em frente à esteira junto com os poucos passageiros que ainda aguardavam suas bagagens. O último carregamento de bagagens foi então liberado na esteira e os passageiros puderam finalmente deixar o aeroporto. Isto é: todos, menos Luís.

Quando Luís se deu conta, ele estava sozinho em frente à esteira, por onde desfilava apenas uma bagagem, que ele sabia não era a dele."Ah, não acredito!" - pensou Luís enquanto procurava o serviço de atendimento do aeroporto para relatar o ocorrido e tentar reaver sua bagagem o mais rápido possível. Mas ele sabia que iria demorar.

Mais de uma hora havia se passado desde que seu voo aterrissou naquele aeroporto, quando Luís finalmente saiu do aeroporto e entrou no táxi para ir para o hotel. Mas, infelizmente, não levava sua bagagem ainda - havia recebido um kit com acessórios básicos de higiene para usar enquanto a empresa aérea providenciava o contato com a senhora que havia confundido as bagagens e havia levado a de Luís por engano.

No dia seguinte, pela manhã, Luís finalmente recebeu sua bagagem, que foi entregue pela empresa aérea no hotel onde estava hospedado. Luís olhou, respirou fundo, e se sentiu aliviado por receber seus pertences de volta. Sua mala preta era um pouco parecida com a da senhora que a havia levado, mesmo sendo quase cinco quilos mais pesada e estando lacrada com um cadeado próprio para bagagens.

Após o tempo de estadia, Luís retornou à sua cidade de origem e, desembarcando no aeroporto, ainda mais atento à esteira, recolheu rapidamente sua bagagem, que foi a primeira a aparecer no desfile. Depois daquele ocorrido, para evitar outra confusão de bagagens, Luís providenciou uma nova mala - dessa vez, de cor vermelha, onde ele marcou suas iniciais em letras garrafais gigantes com pincel atômico preto. Nunca mais sua mala foi confundida.

domingo, 29 de junho de 2014

A batalha da concurseira

Era a manhã de um domingo ensolarado. Minha mãe estacionou na Íris Alagoense e me perguntou: "E aí? Está preparada para a prova?". "Só tem uma vaga, mainha" - respondi, com certo desânimo. "Não se preocupe, minha filha. O que tiver que ser seu, será na hora certa!" - disse-me enquanto se despedia de mim e me desejava uma boa prova.

Pouco mais de um mês antes eu estava consultando um dos sites de concursos e vi aquele edital. Eram seis vagas e três cargos para lotação aqui, em Maceió. Passei alguns dias examinando o edital, suas condições, as atribuições dos cargos e o conteúdo programático das provas. Para um dos cargos, o conteúdo programático era bem específico: Cartografia, Sensoriamento Remoto, Sistemas de Coordenadas, Sistemas de Informação Geográfica, entre outros. Pesquisei provas anteriores e material de estudo sobre esses temas e pensei: "Se eu estudar, me preparar, terei condições de responder a esse tipo de prova". E assim eu fiz.

Naquele momento eu já havia feito várias provas para outros concursos. Havia comprado materiais diversos, estudado e até viajado para outras cidades. Perdi a conta do número de provas que eu havia feito até então. Mas quando vi aquele edital e, depois das análises prévias, fiz a inscrição para concorrer àquele cargo e estabeleci uma meta para mim mesma: me prepararia, faria a melhor prova que eu pudesse fazer e seria, pelo menos, uma das 10 pessoas mais bem preparadas para aquela prova.

O fato de haver apenas uma vaga me deixava um pouco insegura, é verdade. Mas, ao mesmo tempo, eu pensava que, daqueles inscritos que comparecessem no dia da prova, uma pessoa seria aprovada e ocuparia aquela vaga. Talvez eu não conseguisse. Aliás, "provavelmente eu não conseguiria" - pensava. Mas a minha meta - estar entre os dez - era viável e me apeguei a isso.

Então, naquele dia, desci do carro e procurei um lugar para sentar enquanto esperava o horário de entrar na sala. Levei algumas fichas de estudo para ativar os neurônios e reforçar alguns pontos do conteúdo programático. Chegada a hora, passei pelo protocolo de entrada na sala de prova e procurei um lugar para sentar. Confesso que "gelei" ao ver aquela sala cheia - havia 49 inscritos, segundo divulgado pela Banca Examinadora dias antes.

Enquanto fazia a prova, caso alguém olhasse para mim provavelmente me veria apenas como mais uma candidata sentada e respondendo à prova. Mas eu sabia que naquele momento era mais do que isso: era uma guerreira, atenta à batalha das matérias e questões. Eu estava "na briga" pela vaga.

Mais ou menos um mês depois, desacreditei que aquele seria o dia do resultado, afinal é comum haver algum atraso na divulgação. Então consultei primeiro o fórum do qual eu participava e vi várias mensagens dos participantes dizendo: "passei!", "estou muito feliz, passei!", "parabéns aos que passaram!". Meu coração disparou e acessei imediatamente o site onde estava o resultado.

Ao abrir o PDF, procurei a página onde estava o resultado. Franzi a testa, aproximei-me da tela e demorei alguns segundos até cair a ficha... Aquele número 1, ao lado do meu nome e do meu número de inscrição... significava... sim!!! Eu havia passado! "Passei, passei, passei!!" - Levantei, pulei e saí correndo para avisar aos colegas do trabalho da época.

Em seguida, liguei para minha mãe e dei a notícia, emocionada, chorando: "Passei, mainha... consegui... a vaga é minha...". Antes de falar com meu pai, minha mãe respondeu: "Oh, minha filha, parabéns, eu sabia... e eu disse pra você: o que tem que ser nosso, é na hora certa!"

sábado, 21 de junho de 2014

Fórmula 1 não é coisa de mulher (será?)

Pedro estava bastante entusiasmado com o planejamento da viagem a São Paulo, mais precisamente para presenciar o Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1. Ana, a namorada, também estava entusiasmada, até o momento em que ele resolveu dar-lhe um banho de água fria: "Você não vai comigo, não! Fórmula 1 não é coisa de mulher!". Ana não acreditou no que acabava de ouvir. Naquele momento, ficou em silêncio - não por falta do que dizer, mas por ter decidido responder de outra maneira.

Assim os dias foram passando e Pedro já estava com tudo providenciado para sua ida a São Paulo. Ana observava tudo sem dizer uma palavra. Pedro teria sua resposta sim - ah, ele teria! Até lá, ele não fazia ideia do que estava reservado para ele.

Chegou o dia da viagem e Ana se despediu de Pedro, de malas prontas, que partia para o Aeroporto. O que Pedro não sabia era que, mais tarde, Ana também estaria indo ao Aeroporto, com suas malas prontas e passagem para São Paulo.

Chegando em São Paulo, Ana foi para a casa de uma amiga, que, sabendo da história, havia convidado Ana para se hospedar lá. E a localização da casa era a melhor possível: praticamente vizinha ao Autódromo de Interlagos.

Não bastasse a proximidade do Autódromo, como a amiga de Ana tinha uma certa influência, ela levou Ana ao Autódromo e as duas tiveram acesso à área dos boxes das equipes. Ana aproveitou bastante e registrou tudo com sua câmera. Foi possível tirar foto até mesmo com um dos pilotos.

Depois de tudo, Pedro retorna a sua cidade, encontra Ana e conta-lhe sobre tudo o que aproveitou na corrida e fora dela. Ana então mostra-lhe as fotos: "Olha só, eu também estava lá! Pena que eu não te vi!". Dessa vez, foi Pedro que não acreditou no que estava diante de seus olhos. Ana e sua amiga haviam aproveitado muito mais daquele evento que ele alegou ser coisa só de homem.

Moral da história: muito cuidado quando disser a uma mulher que ela não pode fazer algo porque não é coisa de mulher. Se ela for como Ana, poderá mostrar que você está errado. E com estilo!

sexta-feira, 20 de junho de 2014

As aventuras de uma gatinha destemida

Lia já estava adaptada àquela nova vizinhança. No início, achou tudo aquilo muito estranho: parecia ser uma outra casa, havia novos cheiros, novos sons, tudo muito ameaçador. Passou os primeiros dias encolhida embaixo de uma cama, de onde saía apenas para comer a ração, tomar um pouco de água e fazer suas necessidades.

Seus donos haviam acabado de se separar. No meio da confusão, ficou decidido que a ex-mulher ficaria com aquela gatinha fofa, persa, de pelos longos, mesclados, de tonalidade variando de caramelo a marrom. Seus olhos eram da mesma cor dos pelos. Com a mudança, o único lugar onde Lia poderia ficar era a casa dos pais da moça, que ficava numa rua tranquila, longe da agitação do centro da cidade.

Com o passar dos dias, Lia foi explorando e descobrindo os novos ambientes daquele lugar misterioso. Primeiro, descobriu toda a área interna da casa. Depois, foi se aventurando pelo quintal e pelo jardim da área frontal da casa. Daí para a rua foi só um pulo, literalmente. E a rua parecia ser um lugar muito interessante para ser explorado.

Atrás de cada muro, novos ambientes, novos jardins, com seus diferentes aromas, cores, plantas... e moradores... Bem, nem todos os moradores daquelas outras casas eram humanos... Alguns também tinham quatro patas, uma boca cheia de dentes... mas as semelhanças acabavam por aí: um daqueles moradores de quatro patas era bem maior do que a Lia e não aparentava estar receptivo àquela nova visita.

Por alguma razão, Lia gostava muito de pular aquele muro - justo aquele onde o morador bravo de quatro patas já a havia expulsado outras vezes. Talvez fosse alguma planta diferente no jardim, ou algum móvel fofinho na varanda da casa, ou ainda, quem sabe, insetos ou roedores abusados que chamavam a atenção da gatinha. Mas há quem diga que o que movia Lia era a descarga de adrenalina, a emoção, o perigo de encontrar o cão, que a esperava e corria atrás dela, expulsando-a de seu território devidamente demarcado.

Naquele dia, Lia resolveu ser mais ousada. Usando a habilidade "ninja" que só os gatos têm, ela entrou novamente naquele território canino e foi até um ponto onde ela nunca havia ido antes. Mas aquela seria a primeira e última vez que a gatinha fazia suas investidas naquela área.

O cão avistou a gatinha, mostrou os dentes, latiu e mandou que ela saísse de sua jurisdição. A gatinha não estava disposta a obedecer: mostrou os dentes também e rosnou, enquanto encurvava o corpo e levantava seus pelos numa tentativa pouco eficaz de parecer maior e amedrontadora. O cão não quis saber de mais conversa e partiu para cima da gatinha, que, teimosa e destemida, permaneceu em seu lugar, como se dissesse: "Não tenho medo de você! Quero ver quem vai me tirar daqui!".

Depois disso, só restou aos donos da casa - dessa vez os humanos - darem a triste notícia aos donos da nova gatinha. Dizem que "a curiosidade matou o gato", mas, no caso dessa gatinha, "a falta de medo matou a gata"!

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Perguntas e comentários de crianças...

A menina de 4 anos entra na suíte dos pais. O pai, em pé, na porta do banheiro, observa os passos dela em direção ao criado mudo, mais especificamente para aquele pacote que ali ficou esquecido. O pai então entra no banheiro rapidamente e mantém a porta entreaberta, pois sabia que aquele objeto seria alvo de perguntas que a filha faria... e que a mãe, sentada sobre a cama, teria que responder. Mas ele queria escutar toda a conversa, pois sabia que seria divertida!

"Mãe, o que é isso?" A mãe se viu numa situação inesperada - ou que, pelo menos, teria que esperar mais alguns anos para acontecer. "É um pacote de preservativo, filha". Não teve jeito, a pergunta estava lançada e era necessária uma resposta, e a mãe preferiu responder da maneira mais sincera e objetiva possível. Mas as perguntas não acabaram por aí.

"Pra que serve isso, mãe?" Enquanto isso, o pai escutava e tentava conter os risos, mas não queria estar no lugar da mãe para responder àquelas perguntas. "Ah, filha, a mamãe usa para não ter neném" - respondeu, ainda que se sentindo bastante constrangida, e quis manter a linha esclarecedora nas respostas. Mas aquela ainda não era a última pergunta...

"E como se usa?" O pai definitivamente não queria ter que responder àquelas perguntas, especialmente a essa terceira. A mãe, encerrando a conversa e pondo um limite aos esclarecimentos, responde: "Filha, a mamãe toma, como se fosse um comprimido!". E tomou aquele pacote das mãos da filha, que havia assimilado tudo o que foi dito como resposta às três perguntas.

Dias depois, o casal e sua filha caminhava tranquilamente num Shopping, passeando e tomando sorvete, quando encontraram um amigo. Ele os cumprimentou e observou como havia crescido a filhinha deles. Daí ele se agachou e dirigiu-se à menina: "Como você está grande, viu? E, olha, tá na hora dos seus pais lhe darem um irmãozinho, você não acha?". Nesse momento, mostrando que havia assimilado todo o conhecimento adquirido com as perguntas sobre aquele estranho pacote encontrado sobre o criado mudo, ela respondeu: "É, mas está difícil... minha mãe não pára de tomar preservativos"...

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Tensão ao volante

Estava dirigindo à procura de um destino determinado. Era noite e eu não conhecia aquelas ruas, que estavam desertas. Seguia por uma rua, entrava em outra e não encontrava o meu destino. "Vire à direita", dizia a voz do GPS, e eu obedecia. Comecei a inquietar-me, não somente com a dificuldade e a demora para chegar onde eu queria, mas também pelo sentimento de insegurança por estar sozinha naquela situação.

"Estranho, nunca havia observado como essas ruas são ladeiradas, com tantas subidas e descidas", pensei enquanto continuava percorrendo o emaranhado de ruas e avenidas, que eu enxergava apenas pela luz dos faróis do carro e pela quase inexistente iluminação urbana naquela área. O GPS continuava com as instruções e eu continuava a obedecê-lo.

Por um momento, senti um certo alívio: "Por aqui eu já passei, conheço esse caminho. Logo em frente eu sei que há uma ponte", pensei e segui despreocupada. Foi aí que cheguei à ponte... mas...  para minha surpresa... não havia mais ponte...

Era tarde demais para frear ou retornar! Quando me dei conta, o carro caía e o fim dos meus dias estava certo. "Vou morrer agora", pensei fechando os olhos, já esperando pelo impacto que aconteceria em alguns segundos. Não gritei: apenas aguardei a chegada ao solo e, com ele, o fim de tudo.

O carro rapidamente chegou ao fim daquele abismo e aconteceu a colisão. Meus olhos ainda estavam fechados e eu não sentia nada. "Devo estar presa nas ferragens, ou talvez eu tenha ficado desacordada e já esteja internada num hospital". Fui abrindo os olhos lentamente e descobri onde eu estava.

A luz do sol já clareava todo o quarto e era possível ouvir o canto dos pássaros que brincavam no jardim. O despertador não havia tocado, pois havia sido configurado para não funcionar nos fins de semana. Era um lindo dia de domingo e eu não estava nas ferragens, nem num hospital, como acreditei, tão real havia sido aquele sonho.

Olhei para mim mesma, ainda custando a acreditar que nada havia acontecido. Finalmente, senti-me grata por estar em meu quarto e por ter sido apenas um sonho e porque, como num video game, eu estava ganhando uma nova vida, uma nova chance e um novo dia!

terça-feira, 17 de junho de 2014

Amigos de infância com destinos diferentes

Era o segundo dia no novo emprego de Hugo. No dia anterior, sua supervisora havia passado todas as instruções sobre as áreas do prédio que seriam responsabilidade dele e como ele deveria fazer a limpeza. Hugo iniciou os trabalhos seguindo a mesma sequência das orientações que recebera a fim de lembrar-se daquelas instruções o máximo possível. Afinal, depois de quase quatro meses desempregado, não queria fazer feio nem correr o risco de perder essa oportunidade recém encontrada.

Enquanto limpava, pensou: "Ainda bem que essa parte do prédio não é tão cheia de gente, como lá no térreo. Aqui, parece que todo mundo está dentro dessas salas com nome de Juiz na porta". Continuou fazendo seu serviço, mas, dessa vez, quis ler os nomes que apareciam nas portas das salas. "Juiz Federal Fulado de Tal", "Juiz Federal Sicrano de Tal", "Juiz Federal Beltrano de Tal"... "Não quero nem ver esses juízes" - pensou - "Devem ser uns mauricinhos muito chatos". E continuou fazendo a limpeza.

Ao chegar em frente a uma das salas, leu o nome que estava na porta apressadamente e continuou seu trabalho. Ouviu passos de alguém se aproximando e afastou-se da porta para permitir a passagem. Escutou um "Boa tarde" e levantou a cabeça para responder ao cumprimento. Nesse momento, fez contato visual com aquele que o cumprimentou e teve a impressão de que conhecia aqueles olhos de tempos anteriores.

"Como vai, Hugo? Há quanto tempo?" - Hugo quase não acreditou que aquele rapaz de óculos, bem vestido, segurando uma pasta bonita, estava estendendo a mão para ele, com um grande sorriso nos rosto. Somente no momento do aperto de mão Hugo recordou exatamente quem era aquela figura familiar: era o Lucas, um amigo de infância de quem ele perdera o contato havia muitos anos.

Conversaram um pouco e Hugo ficou sabendo que Lucas, aquele garoto franzino que estava sempre com um livro na mão havia se tornado pai de família, morava num bairro bacana e trabalhava naquele mesmo prédio. Lucas, muito educadamente, desculpou-se e pediu licença para seguir para sua sala, pois estava um pouco atrasado. "Fiquei feliz por te ver, depois conversamos mais, certo?" disse Lucas, despedindo-se e já entrando na sala para onde se dirigia.

Só então Hugo prestou atenção no nome que havia lido na porta da sala: "Juiz Federal Lucas Costa dos Santos". "Quer dizer que Lucas agora é juiz?", pensou Hugo, que ficou paralisado por alguns segundos, até que voltou a dar prosseguimento à limpeza do hall. Mas, enquanto limpava, um pensamento ecoava em sua cabeça: "Lucas virou juiz?", "Então Lucas virou juiz?"...

Terminado o expediente, enquanto seguia para casa, já no ônibus, Hugo continuou refletindo sobre o que havia visto que tinha acontecido com seu amigo de infância. Ao chegar em casa, foi até o quarto onde estava seu filho, sentou-se no chão para ficar da mesma altura que ele, e disse: "meu filho, quando você crescer, eu quero ver você como o meu amigo Lucas". E assim, daí em diante, Hugo fez o possível e o impossível para conseguir livros e incentivar seu filho a seguir com os estudos. Sentiu orgulho só de imaginar seu filho adulto usando óculos, bem vestido e com uma bonita pasta nas mãos.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O atraso do noivo

A Igreja estava belíssima. A cantora aquecia a voz e os músicos afinavam os instrumentos. Os arranjos e velas, impecáveis, decoravam o altar, as imagens e a passarela. A equipe de fotografia e filmagem já havia feito todas as tomadas que desejavam. Os convidados, com seus trajes de gala que a ocasião exigia, já se encontravam acomodados, ocupando todos os bancos da Igreja. Também já estavam prontos o padre, as daminhas, os pajens e os padrinhos: todos aguardando o início da cerimônia.

Atrasos em casamentos são sempre esperados. Então trinta, quarenta minutos ou, às vezes, um pouco mais do que isso são tolerados e até respeitados. Afinal, o dia da noiva requer todo o capricho do mundo. Mas aquela cerimônia já estava com uma hora e meia de atraso e as pessoas começavam a demonstrar uma certa impaciência.

Uma das convidadas comentou para a cantora: "Puxa, a noiva está demorando bastante, hein?" A cantora se aproximou da convidada, sua amiga, e respondeu, discretamente: "A noiva está lá fora faz uma hora. Quem está atrasado é o noivo..." A convidada arregalou os olhos e levou a mão direita à boca, não conseguindo disfarçar o espanto com aquela situação. Ficou imaginando como a noiva deveria estar ansiosa dentro do carro, com seu vestido, véu, grinalda e buquê, e o que poderia ter acontecido com o noivo, para estar tão atrasado.

Apenas trinta minutos depois a cerimônia pôde ser iniciada. "O noivo deve ter chegado", pensou a convidada. Após a entrada dos pais e padrinhos, entrou o noivo, com um certo sorriso amarelo, e sua mãe. Depois das daminhas e pajens, os convidados ficaram de pé para receber a noiva e seu pai. A noiva acenou e sorriu durante todo o trajeto, como havia sonhado e ensaiado várias vezes. Mas, no fundo dos seus olhos, parecia haver um certo desapontamento disfarçado.

Ao chegar ao altar e ser recebida pelo noivo, a rapidez com que se posicionou e segurou a mão do noivo deixou evidente seu desejo de iniciar a cerimônia o quanto antes, sem muitas demonstrações de afeto naquele momento. A cerimônia seguiu como de costume. No final, os noivos saíram da Igreja com as alianças em suas mãos esquerdas, sorriram e receberam a chuva de arroz lançada pelos convidados.

A convidada não soube quais motivos teve o noivo para aquele atraso, nem qual foi a maneira como a noiva encarou aquela situação depois da festa. "O encontro dos dois no altar não parece ter sido um bom início" - pensou a convidada, conhecedora dos desafios que se iniciam no dia seguinte à festa de casamento. Mesmo assim ela desejou, com todo o seu coração, que aquele casal fosse muito feliz em sua vida conjugal.

domingo, 15 de junho de 2014

Quando uma porta se fecha e outras se abrem...

Estavam prestes a completar cinco anos juntos. Muito tempo já havia passado e muitos bons momentos foram vividos por eles. Cada um possuía uma caixa cheia de recadinhos, cartões, bilhetes e flores ressecadas, que foram trocados em datas especiais como dias dos namorados, aniversários de namoro, Natal, aniversários e também em datas inespecíficas, nas quais eles trocavam palavas de amor e reforçavam o sentimento que havia entre eles.

Eles formavam aquilo que se chama "casal perfeito". Eram lindos, educados, inteligentes e estudiosos. Vinham de boas famílias, que apoiaram o relacionamento dos dois desde o início e esperavam, ansiosamente, que eles dessem o próximo passo.

Porém, nos últimos meses, algo havia mudado entre eles, embora fosse imperceptível aos olhos dos amigos e familiares que acompanhavam o namoro deles. Quando eles eram vistos juntos em festas, confraternizações e encontros familiares, aparentemente eles continuavam a ser aquele "casal perfeito". Mas, quando estavam juntos e distantes dos olhares dos "espectadores", eles sabiam que havia algo estranho entre eles.

A troca de cartões e mensagens, tão intensa no início do relacionamento, havia se tornado inexistente nos últimos meses. As declarações de amor foram resumidas a apenas um "eu te amo" seguida por um "eu também" no momento da despedida através de frias mensagens de texto. Nem o som de suas vozes se escutava mais entre eles. Toda a comunicação, que antes era diária, ficou restrita a eventualidades e aos caracteres das mensagens trocadas através dos smartphones.

Então chegou o dia daquela conversa que eles haviam adiado tantas vezes, talvez na esperança de que algo mudasse e restaurasse o clima que havia no início do relacionamento. A conversa foi simples, franca e direta, mas respeitosa e, ao mesmo tempo, triste. Eles se despediram e deram as costas um ao outro e não voltariam a se ver de frente da mesma forma como nos últimos 5 anos.

O amigos, familiares e outros conhecidos nunca entenderam o que aconteceu com eles. Imaginaram vários tipos de problemas que poderiam ter levado aquele relacionamento perfeito ao fim, mas nenhuma hipótese era verdadeira. Para eles, que deixaram de formar um casal, o fim daquele relacionamento não correspondeu ao fim de suas vidas, mas, ao contrário, foi o início de novas etapas, novas realizações, novas experiências e novos amores...

sábado, 14 de junho de 2014

A adorável companhia do meu silêncio

Na primeira vez em que fui ao cinema sozinha, eu havia planejado passar a tarde numa programação bem menos interessante: ficar na fila de atendimento do "JÁ" do Shopping Farol para pegar um documento e torcer para estar livre a tempo de não me atrasar para o compromisso seguinte, que seria às 19 horas numa academia próxima àquele Shopping. Mas, como o atendimento foi bem mais rápido do que eu esperava, fiquei livre muito mais cedo do que o previsto.

Assim, para ocupar as horas que faltavam para o próximo compromisso, decidi assistir ao filme que passava no cinema, pois o horário era compatível com a minha agenda. Até esse dia, e nesse dia, inclusive, eu tinha a ideia de que ir ao cinema era um programa romântico, para curtir a dois, ou pelo menos com um grupo de amigos. Comprei o ingresso, a pipoca e o refrigerante e me dirigi à sala, um tanto constrangida com a situação. Terminado o filme, o constrangimento continuou, pois pensei "puxa, se alguém me vir saindo do cinema sozinha, vai achar esquisito..."

Depois daquele dia refleti e concluí que não havia nada de embaraçoso em ir ao cinema sozinha. Fui outras vezes, em ocasiões diferentes, não mais porque estava com o tempo livre, mas porque eu queria mesmo ver o filme em cartaz, independentemente de estar acompanhada. Na verdade, eu quis mesmo ir desacompanhada!

Com o passar do tempo, aos poucos, fui me aventurando em outros ambientes como lanchonetes, restaurantes, praia e festas. Cheguei ao ponto de não sentir mais qualquer constrangimento, mesmo quando, na época,  era apenas eu de solteira no meio de um grupo de casais. Até viagem sozinha eu cheguei a fazer. Tudo na adorável companhia do meu silêncio.

Nos dias atuais, eventualmente repito esses passeios solitários e amo fazê-los. Não que a companhia do marido não seja agradável, ou não haja companhias disponíveis, ou exista qualquer outro problema, mas eu aprendi a gostar da minha própria companhia e isso é uma maneira de exercitá-la.

Para finalizar, cito as palavras sempre pertinentes de Martha Medeiros: "Estar com alguém só para não estar sozinho é solidão mal administrada".

sexta-feira, 13 de junho de 2014

História de amor para o dia de Santo Antônio

Todas as noites eles passavam pelo mesmo lugar, mas nunca haviam notado a presença um do outro. Ela pedalava e ele fazia cooper na movimentada orla de Maceió. Depois de um dia de trabalho, eles encontravam um momento de lazer e atividade física naquele espaço disputado, mas onde sempre há lugar para mais um, como o coração de mãe.

Ele iniciava seu trajeto nas proximidades do Clube Fênix Alagoana, passava pela feira de artesanato da Pajuçara, seguia em direção ao Maceió Mar Hotel, encontrava as barracas de tapioca e fazia o retorno próximo à entrada da Avenida Jatiuca, como é conhecida a Avenida Julio Marques Luz. Ela fazia o mesmo trajeto em sua bicicleta, mas em sentido inverso ao dele.

Assim, todos os dias eles passavam um em frente ao outro em dois momentos: o da ida e o da volta do percurso. Mas, até aquele dia, eles estavam distraídos demais para perceberem a presença um do outro no meio de tantas pessoas ocupadas com suas caminhadas, pedaladas, corridas e patinadas.

Naquele dia, porém, tudo parecia acontecer como em todos os outros dias. Eles se cruzaram no trajeto de ida como dois desconhecidos que eram. Mas, no retorno, isso mudaria.

Ela pedalava e contemplava o horizonte. Ele observava os prédios e sua beleza arquitetônica. Aproximavam-se um do outro, dessa vez, numa mesma linha reta. A colisão foi certeira: o pneu dianteiro dela atingiu o joelho esquerdo dele. Ela caiu devido ao desequilíbrio da bicicleta e ele, devido à dor.

Ao invés de se preocupar com o próprio joelho, ele perguntou a ela se estava bem. Ela, por sua vez, nem percebeu que a bicicleta havia quebrado, pois a pancada devia estar doendo bastante nele, pensou. Daí em diante, um prestou auxílio ao outro, trocaram telefones, redes sociais, endereços e várias formas de contato.

Se foi coincidência ou não, aquele era o dia de Santo Antônio. E, coincidência ou não, naquela mesma data, no ano seguinte, eles saíam da Igreja como recém-casados!

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Lembrança de um banho de chuva

Eu estava voltando para casa num dia de semana pela manhã, depois de uma aula de Vôlei. O ônibus se aproximava do meu ponto de desembarque e meu coração se apertava, pois a chuva caía cada vez mais forte e eu não levava uma sombrinha para usar no curto trajeto que eu deveria fazer a pé para chegar em casa. Curto, mas que durava cerca de 5 minutos num dia ensolarado. Mas naquela manhã a distância parecia multiplicada por 5.

Ao descer em meu ponto, eu já estava conformada com o banho de chuva iminente e inevitável. Fui dando os primeiros passos apressadamente para, ao menos, tentar diminuir o tempo de exposição àquele temporal.

Porém, alguns passos depois, comecei a sentir algo que eu não havia imaginado: o banho de chuva era tão prazeroso quanto um banho qualquer... Não, pensei, na verdade, era muito mais prazeroso!

 Pude sentir meus cabelos e minhas roupas ficando ensopadas, mas era como um chuveiro gigante no qual eu estava me lavando... lavando o medo de adoecer, de me molhar naquela água proibida, de... de quê mesmo? Eu nem me lembrava mais dos motivos para levar sempre uma sombrinha na bolsa e nunca me molhar na chuva...

Desacelerei os passos, já não havia mais motivos para tentar encurtar o tempo de caminhada. Ao contrário: aquela chuva me fez sentir tão bem que eu estava mais interessada em prolongar a duração daquele banho que eu tomava usando roupas e na rua da minha casa.

Terminado aquele banho diferente, fui direto para o chuveiro convencional depois de tirar aquela roupa que grudava no corpo e pesava com o peso da água acumulada. Senti o jato de água morna e fiquei aliviada por estar no conforto de casa.

Depois daquele dia, não precisei encarar a chuva por um bom tempo. Mas a sensação gostosa ficou arquivada em meu cérebro na área de "lembranças de pequenas aventuras deliciosas"!